O que significa power dressing hoje?
Essa pergunta e, consequentemente, este artigo nascem de uma das minhas consultorias com uma marca brasileira que leva a nossa cultura para o cenário internacional, desfilando em uma semana de moda fora do país.
É justamente a partir dessa reflexão que se constrói a linha de alfaiataria da coleção que estamos desenvolvendo juntos, como uma resposta direta à ideia de presença, autoridade e identidade por meio da roupa.
Como consultora e professora de moda, posso dizer, com certa experiência, que em determinados ambientes a credibilidade precisa ser percebida em poucos segundos.
Falo aqui de situações muito específicas: entrar em uma reunião com um conselho de administração, conduzir uma negociação difícil, apresentar um projeto para investidores ou ocupar um espaço em que a presença ainda influencia a forma como autoridade e competência são interpretadas.
Em contextos como esses, a roupa não é detalhe. Ela participa ativamente da leitura que se constrói sobre quem está à frente.
A coleção que estamos desenvolvendo trabalha com cintura marcada, ombros amplos sem exagero e uma presença visual assumida, dialogando diretamente com o power dressing dos anos 1980. Não como nostalgia ou fantasia, mas como referência a um momento histórico em que muitas mulheres passaram a usar o vestuário como linguagem de acesso, credibilidade e permanência no mundo do trabalho.
Vale lembrar que o power dressing não é exatamente uma tendência que surge do nada e depois desaparece. Ele costuma reaparecer sempre que a credibilidade não é distribuída de forma neutra e quando a leitura visual precisa acontecer rapidamente. Por isso, quando essa estética retorna em contextos de maior conservadorismo cultural, dificilmente se trata apenas de gosto ou coincidência.
Aqui gosto de ancorar o raciocínio em uma ideia simples, justamente para evitar que o tema se dilua em análise estética. Conforme Andrew Bolton, curador do The Costume Institute, a moda é indissociável do tempo: ela “reflete e representa o espírito do tempo” e “muda e se desenvolve com o tempo”.
Nesse sentido, quando o campo simbólico se torna mais rígido, as escolhas de vestuário ganham peso, porque comunicam posicionamento antes mesmo da fala.
O que o power dressing já (re)significou
Historicamente, o power dressing surge no final dos anos 1970 e se consolida nos anos 1980, quando mais mulheres passam a ocupar ambientes profissionais organizados por códigos visuais masculinos.
Ombros marcados, alfaiataria rígida e silhuetas firmes não eram apenas escolhas estéticas nem “moda de trabalho”: eram ferramentas de legibilidade. Era a roupa dizendo, de forma clara, eu pertenço (ou tenho direito a pertencer!) a este espaço.
Naquele contexto, não se tratava de expressar individualidade, mas de produzir um tipo específico de feminilidade que pudesse ser lida como profissional.
Guias e discursos de “como se vestir para vencer” ajudaram a consolidar esse código como um “uniforme” possível para a ascensão feminina em estruturas corporativas já dadas.
Autoras como Joanne Entwistle descrevem esse fenômeno como “technology of the self”, — uma tecnologia do self — ligada às transformações do trabalho e à construção da figura da career woman.
Nesse sentido, o guarda‑roupa funcionava como uma pedagogia silenciosa de ascensão: aprendia‑se a ser levada a sério também pela imagem.
É por isso que referências culturais como Working Girl continuam sendo úteis. Elas mostram como o power dressing foi narrado como passagem, quase como um rito: a mudança de posição vinha acompanhada da mudança de aparência.
Não era liberdade estética, mas, antes, uma adaptação a um idioma visual dominante, dentro do qual a mulher profissional conquistava espaço.
Da estética ao gesto intencional
Esse entendimento começou a se deslocar ao longo dos anos. O que vemos com clareza é a passagem do uniforme para uma linguagem mais pessoal e multifacetada.
O power dressing deixa de ser uma estética exclusivamente corporativa e passa a operar como autoexpressão, atravessando diferentes contextos do cotidiano, do trabalho formal a ambientes criativos, e até situações mais informais em que ainda se deseja uma leitura clara.
Hoje ele está menos associado a dominar uma sala e mais a se apresentar com intenção e autenticidade. Isso ajuda a entender por que, na moda atual, a ideia de poder se aproxima cada vez mais de identidade e presença e se afasta de uma autoridade rígida e padronizada.
Aqui cabe uma nuance importante. Intenção não significa chamar atenção, mas, sobretudo, ser legível do jeito certo para o contexto certo.
Por que o power dressing volta agora
Se a análise ficar restrita às passarelas, ela se torna confortável demais. O ponto central é compreender por que esse código retorna justamente agora, não apenas no discurso de moda e nas passarelas, mas também nas conversas e demandas que aparecem nas minhas consultorias.
A pergunta inevitável é se o retorno da alfaiataria estruturada em 2026 pode ser lido como uma resposta estética a um ambiente social mais duro, marcado por conservadorismo, que reconfigura e torna mais hostil o espaço público para as mulheres.
Diferentes visões conectam esse retorno ao endurecimento do espaço público e reforçam a importância de perguntar: quem usa, em que contexto e com que intenção.
Quando esse ambiente se fecha, a roupa deixa de ser apenas expressão pessoal e volta a operar como ferramenta de posicionamento e de proteção simbólica.
Nesse cenário, o power dressing passa a funcionar novamente como linguagem de presença e afirmação contemporânea, e isso muda a forma como “precisamos” interpretá‑lo.
O deslocamento de 2026: do uniforme à precisão
Em 2026, o ponto não está em repetir um uniforme inteiro. O deslocamento mais relevante acontece da repetição para a precisão.
Algo que observo com frequência é que as pessoas não leem um look como uma editora de moda. A leitura costuma ser mais direta: primeiro, a silhueta geral; depois, um detalhe específico. É esse detalhe que faz grande parte do trabalho de autoridade.
Por isso, uma escolha pequena, mas deliberada, pode ser mais eficaz do que um look inteiro tentando comunicar poder.
Quando falo de precisão, não estou falando de uma peça específica. Estou falando de um gesto visual bem escolhido, uma decisão visível. O blazer aparece aqui apenas como um exemplo possível desse raciocínio, nunca como regra ou eixo obrigatório.
Um blazer bem cortado pode comunicar competência, assim como uma cor escolhida com intenção, uma proporção bem resolvida, um acessório usado de forma deliberada ou uma combinação que deixa clara uma decisão. O que comunica autoridade não é a peça em si, mas o fato de ela parecer escolhida e não automática.
Essa lógica reduz custo, mas aumenta exigência. O detalhe precisa parecer intencional, não acidental. Em 2026, menos sinais, bem articulados tendem a funcionar melhor do que o excesso. O erro não é usar um blazer. O erro é depender de qualquer peça como muleta visual.
Presença como palavra‑chave
A palavra que atravessa parte significativa das leituras recentes sobre power dressing em 2026 é presença.
Presença aparece justamente nessa virada do “parecer adequada” para o “ser notada, lembrada e sentida”. Isso se traduz em silhuetas mais fortes, texturas mais ricas e na decisão visual de ocupar espaço com confiança.
Saint Laurent e Gucci oferecem duas leituras bastante distintas dessa lógica. Saint Laurent constrói autoridade por meio de uma alfaiataria precisa e de um erotismo contido, quase silencioso. Gucci aposta numa abordagem mais eclética, em camadas, expressiva e intuitiva, que privilegia individualidade acima da perfeição.
Esse contraste mostra que o poder não fala um único idioma. Ele pode se manifestar como controle formal ou como coerência identitária. Em ambos os casos, trata‑se de presença.
O que o power dressing não é em 2026
Também é importante deixar claro o que o power dressing não é hoje.
Ele não consiste em copiar o tailleur dos anos 1980, que fazia sentido em um contexto específico, quando praticamente não havia repertório visual para autoridade feminina. Esse cenário mudou o suficiente para que esse código completo deixe de ser, por si só, a solução mais eficaz.
Ele também não é usar o minimalismo como substituto de decisão. Um guarda‑roupa contido pode comunicar poder quando escolhido com intenção; quando é usado por indecisão, isso costuma ser percebido.
Além disso, não se trata de vestir o mesmo look para todas as situações. Em 2026, o poder está justamente na leitura correta do ambiente. Uma entrevista, uma negociação salarial, um pitch criativo e um jantar com cliente exigem sinais diferentes. Ajustar o visual ao resultado esperado é inteligência estratégica, não tentativa de agradar ou de se encaixar.
Uma camada teórica necessária
Essa camada teórica não entra para tornar o texto mais difícil, mas para torná‑lo mais fiel ao que está em jogo.
Quando Andrew Bolton afirma que a moda “reflete e representa o espírito do tempo” e “muda e se desenvolve com o tempo”, ele aponta para o fato de que o corpo vestido não é apenas imagem, mas leitura social.
Se a moda reflete o tempo, ela também absorve as disputas do tempo. Nesse sentido, vestir‑se nunca é um gesto neutro, a roupa se torna política: ela participa da forma como o sujeito é percebido, autorizado ou questionado dentro de um determinado contexto. Em momentos de maior rigidez simbólica, essas leituras se intensificam. A roupa passa a carregar um peso maior, não como ornamento, mas como linguagem.
Aqui entra um ponto decisivo, e ele é ambivalente. A mesma roupa que organiza a presença também pode aprisioná‑la, quando a legibilidade deixa de ser escolha e passa a ser exigência.
Michel Foucault ajuda a nomear esse mecanismo ao mostrar como as formas modernas de poder operam pela disciplina e pela normalização, criando padrões que acabam sendo internalizados, a ponto de produzirem autorregulação.
Isso muda a leitura do power dressing. Ele pode ser uma ferramenta para ocupar espaço sem pedir licença. Mas, em certos ambientes, ele também pode se tornar o preço de entrada, isto é, um código que exige que você se torne legível em um idioma que não escolheu por inteiro.
Ter essa consciência evita romantizações.
Power dressing sem contexto vira figurino. Power dressing entendido como linguagem ajuda a explicar por que ele retorna, por que se transforma e por que, em 2026, ele exige muito mais precisão do que repetição.
Uma definição possível para 2026
Se eu tivesse que fechar este texto sem recorrer a frases de efeito, diria o seguinte.
O power dressing em 2026 importa porque nos obriga a pensar com mais clareza e precisão sobre o que a roupa comunica. Mas ele só faz sentido quando não é confundido com consumo e presença, com obediência visual.
As perguntas centrais continuam sendo simples e exigentes ao mesmo tempo: o que eu preciso produzir nesta situação, como este ambiente lê autoridade e qual é o sinal principal que sustenta essa leitura sem apagar quem eu sou.
Volto ao ponto inicial porque ele é o mais prático de todos. Se a roupa precisa trabalhar por você, ela precisa ser legível. Só que legível não significa padronizada.
Em 2026, o gesto mais potente costuma ser um só, bem escolhido, sustentado por um conjunto coerente. Esse raciocínio é direto, mas não é superficial. Ele toca o núcleo do que significa ocupar o espaço público como mulher e ser lida como sujeito inteiro.
Sobre a autora
Fernanda Zeemann é consultora de moda com mais de 13 anos de experiência internacional na indústria, com atuação em pesquisa de materiais e desenvolvimento de produto para marcas como Versace e Marni, em Milão, e Burberry, em Londres.
É professora no Istituto Marangoni, em Florença, e na Accademia del Lusso, em Roma, com atuação anterior em Paris. Leciona disciplinas voltadas ao desenvolvimento de produto, tecnologia têxtil, brand management e startup management, com foco na estruturação de coleções e na construção, gestão e posicionamento de marcas de moda.
À frente do My Fashion Blomme, atua no desenvolvimento de coleções, na estruturação de marcas e na definição de posicionamento estratégico para projetos no Brasil e no exterior, operando na intersecção entre método, estética e mercado.
