Se você sentiu um certo “burnout” das tendências nos últimos meses, saiba que o mercado de luxo também sentiu. Em um mundo saturado por ciclos infinitos de estéticas que duram apenas uma semana no TikTok, o verdadeiro prestígio começou a se diluir no ruído das redes sociais.
Mas o jogo está prestes a mudar drasticamente. A Kering — o gigante que comanda nomes como Gucci, Saint Laurent e Balenciaga — acaba de anunciar uma virada de chave histórica com o plano “ReconKering”, sinalizando que a era das vendas desenfreadas deu lugar à era do valor absoluto.
Sob a nova liderança de Luca de Meo, o conglomerado francês decidiu que a obsessão por números de vendas imediatos estava ferindo o que o luxo tem de mais sagrado: o desejo.
A nova estratégia não é sobre estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas sobre ser a peça que você realmente sonha em ter no seu guarda‑roupa. Trata‑se de uma transição clara, na qual decisões estratégicas orientadas pela criação passam a pesar mais do que lógicas de crescimento acelerado baseadas em resultados de vendas.
Kering e a jornada do luxo!
O plano de reestruturação da Kering funciona como um processo de amadurecimento que se estenderá até o final desta década. O primeiro passo, iniciado agora em 2026, foca em reconstruir as bases e reativar aquela conexão emocional que as marcas de luxo costumavam ter com o público. É o momento de “limpar a casa”, focar na relevância criativa e garantir que cada coleção conte uma história real, em vez de apenas seguir algoritmos de engajamento.
Para 2028, o foco se volta para a consolidação das identidades e para a rentabilidade por meio da excelência.
O objetivo final, projetado para 2030, é estabelecer o que o grupo chama de “Next Luxury”. Este conceito define um mercado mais consciente, estruturado e orientado para o longo prazo, onde o sucesso não é medido por quantas bolsas são vendidas, mas pela sustentabilidade e durabilidade de cada peça no ecossistema da moda global, ou seja, a capacidade da marca de gerar valor, desejo e relevância ao longo do tempo.
Qualidade sobre quantidade!
Essa mudança de mentalidade reflete diretamente o momento que vivemos hoje, em que o hiperconsumo passa a ser cada vez mais questionado.
Ao direcionar entre 5% e 6% de sua receita para infraestrutura, tecnologia e para o fortalecimento da cadeia de suprimentos e do artesanato, a Kering não está apenas otimizando processos, mas garantindo a construção de um produto final com integridade absoluta.
Para o consumidor, isso reposiciona a compra de luxo: não mais um gesto apressado, contaminado pela lógica do mercado atual, mas um investimento consciente. Uma peça que atravessa o tempo, preserva valor de revenda, pode ser transmitida entre gerações e carrega um peso cultural que o fast fashion — ou o atual ultra fast fashion de gigantes como a Shein — dificilmente conseguirá reproduzir.
No centro desse reposicionamento estratégico está a Gucci, que segue como termômetro criativo e emocional do grupo. É nela que essa nova fase se manifesta com maior intensidade, testando a possibilidade de uma potência global manter sua escala sem perder a aura de mistério, desejo e a integridade artesanal que sustenta historicamente o luxo.
No fim das contas, a mensagem da Kering parece menos um manifesto corporativo e mais um convite à curadoria pessoal.
Em um futuro em que “menos é mais” deixa de ser slogan para se tornar prática, o verdadeiro luxo não está na expansão infinita, mas na capacidade de sustentar o significado de cada escolha que fazemos ao nos vestir.
