John Galliano e Zara

Zara e a criação autoral: a aposta do fast fashion

Desde abril de 2022, Marta Ortega Pérez, nascida em Vigo, na Galícia, 42 anos, casada com Carlos Torretta, é a presidente da Inditex, conglomerado espanhol que controla a Zara e outras marcas como Massimo Dutti, Pull&Bear, Bershka, Stradivarius, Oysho e Zara Home.

Filha do fundador da Inditex e da Zara, Amancio Ortega, ela não chegou ao topo diretamente. Após se formar em Administração e Negócios Internacionais pela European Business School, em Londres, iniciou sua trajetória profissional como vendedora em uma loja da Zara em Londres. Em seguida, passou por diferentes áreas do grupo, especialmente nas áreas de produto e design, antes de assumir a presidência.

Como presidente, Marta Ortega ocupa um cargo não executivo, mas é ela quem define a visão estratégica do grupo, o posicionamento cultural da Zara e o tipo de diálogo que a marca deseja estabelecer com a moda, a arte e a sociedade. Na prática, isso significa influenciar muito mais o “como” do que apenas o “o quê”.

Além do cargo corporativo, ela criou, em 2022, a Fundación MOP (Marta Ortega Pérez Foundation), dedicada a exposições de fotografia e moda em A Coruña, com nomes como Irving Penn e Steven Meisel, que tratam a imagem como linguagem e não como produto.

Desde que assumiu a presidência, Marta Ortega vem buscando afastar a Zara do rótulo estrito de fast fashion, reposicionando a marca em um território mais aspiracional, autoral e cultural, estratégia frequentemente citada por veículos como Bloomberg e Business of Fashion.

Como professora de moda, acompanho de perto esse movimento. Ele não acontece apenas no discurso; aparece, de forma concreta, na maneira como a marca constrói imagem, narrativa e repertório. A parceria com John Galliano é o movimento mais radical e visível dessa visão.

Quando John Galliano encontrou Marta Ortega e por que esse encontro diz tanto sobre o momento da moda

Há encontros que não acontecem por estratégia, mas por afinidade. E há negócios que só existem porque antes houve conversa, escuta e curiosidade intelectual. No caso de John Galliano e Marta Ortega Pérez, tudo indica que foi assim.

Esse encontro não se deu em uma sala de conselho nem durante uma semana de moda. Aconteceu em uma visita de Galliano a uma mostra da Fundación MOP, como ele próprio relata:

“Conheci Marta por meio da Marta Ortega Pérez Foundation e das maravilhosas exposições que ela realiza, desde a dedicada a Steven Meisel até a exposição sobre Irving Penn”, explicou Galliano. “A partir dessas exposições, começamos a construir uma amizade. Admiro muito a sua abertura de espírito.”

É significativo que uma das parcerias mais comentadas da indústria nos últimos anos tenha nascido ali, longe do calendário comercial.

Confesso que esse dado, em particular, me chama a atenção. Talvez porque revele algo simples, mas raro: certas decisões só acontecem quando existe tempo; tempo para olhar, conversar e construir repertório.

Quando a Zara anuncia uma parceria criativa de dois anos com John Galliano, o que está em jogo não é apenas o retorno de um designer ao mercado. É, no fundo, uma pergunta mais ampla: o que acontece quando uma das maiores plataformas globais de moda do mundo decide se aproximar, de forma estruturada, da ideia de autoria?

O trabalho de Galliano na Zara não começa com uma coleção, mas com um método

Galliano não entra na Zara para assinar peças. Isso ele poderia fazer em qualquer lugar. O que torna esse projeto singular é o fato de ele trabalhar a partir do arquivo da própria marca, algo que, até pouco tempo atrás, parecia quase um contrassenso para uma empresa historicamente associada à velocidade e à obsolescência programada.

O termo utilizado, re-authoring, é revelador. Não se trata de reciclar nem de revisitar tendências, mas de reescrever, de olhar para peças existentes e submetê-las a um processo de construção que vem da alta-costura, envolvendo forma, proporção, corte e narrativa.

Galliano já afirmou que precisa lembrar a própria equipe, diariamente, que não se trata de “isso ou aquilo”, mas de reescrita. Essa insistência, por si só, diz muito sobre o tipo de mudança que está sendo proposta.

O trabalho acontece fora do radar, em um ateliê nos arredores de Paris. As coleções começam a chegar às lojas a partir de setembro de 2026, de forma sazonal, e são descritas como além de gênero e além de estação. Mais do que um slogan, isso surge como consequência natural de um processo mais lento e reflexivo.

O verdadeiro diferencial dessa colaboração: tempo, profundidade e risco

A Zara já realizou colaborações importantes. Narciso Rodriguez, Stefano Pilati, Kate Moss e Steven Meisel são nomes relevantes. Mas essas iniciativas tinham algo em comum: começo, meio e fim. Funcionavam como eventos pontuais.

A parceria com Galliano não. Ela é longa, profunda e, sobretudo, arriscada.

Dois anos de colaboração significam tempo para erro, ajuste e amadurecimento. No contexto atual da moda, isso já representa quase uma ruptura. Significam também abrir espaço para que um criador com uma linguagem muito própria dialogue com uma estrutura industrial gigantesca. Isso não é trivial e dificilmente cabe na lógica tradicional de campanha ou lançamento.

O negócio por trás do gesto e por que ele faz sentido agora

Do ponto de vista empresarial, essa parceria acontece em um momento crucial. A Zara não compete mais apenas com a H&M. Ela disputa atenção com marcas de ultra fast fashion como Shein e Temu, que operam em outra lógica de preço e escala.

A resposta da Zara não é baixar ainda mais o preço. É elevar o discurso.

Galliano oferece algo que não pode ser copiado por algoritmo: repertório, história, autoria e valor simbólico. Ao mesmo tempo, ao trabalhar com arquivos e estruturas já existentes, a marca preserva sua cadeia vertical e seu controle de produção. Não abandona eficiência; apenas muda o eixo de valor. Trata-se de uma estratégia sofisticada, que combina eficiência industrial com capital cultural.

Antes de Galliano, o caminho já estava sendo preparado na Zara

Desde que Marta Ortega assumiu a presidência da Inditex, a Zara vem sinalizando uma mudança. Lojas-conceito mais arquitetônicas, colaborações mais autorais e uma aproximação consistente com o universo da arte e da fotografia. Nada disso é casual.

A parceria com Galliano não surge do nada. Ela é o ponto mais ousado de um movimento que já vinha sendo desenhado. Talvez o mais importante seja perceber que essa transição não é repentina; ela é construída. A diferença é que agora o gesto é irreversível.

Lagerfeld, Anderson, Galliano: três modelos, três tempos

É impossível não lembrar de Karl Lagerfeld para a H&M, em 2004. Aquela colaboração mudou a indústria, mas era claramente um evento, com coleção única, escassez planejada e explosão midiática.

O modelo JW Anderson para a Uniqlo é outro. Contínuo, funcional e integrado ao essencial da marca, representa um refinamento do cotidiano.

Galliano para a Zara não é nem uma coisa nem outra. É mais longo que o modelo da H&M, mais autoral que o da Uniqlo e mais complexo que ambos. Na prática, aproxima-se de um terceiro modelo, ainda em construção. Trata-se de um experimento em escala global, algo que ainda não vimos nessa dimensão.

Por que isso gerou tanto debate e por que é saudável que gere

A reação da mídia foi intensa porque a parceria toca em nervos expostos da moda contemporânea. O lugar da autoria, a relação entre arte e mercado, a ideia de valor e a ética da escala estão todas em jogo.

Galliano carrega uma história de peso na moda, brilhante e contraditória. Vê-lo associado à Zara provoca desconforto em muitos? Talvez. Aliás, talvez seja justamente aí que a moda volte a ser interessante. Moda que não gera desconforto não move nada.

A pergunta que permanece não é se isso vai dar certo, mas o que essa colaboração revela sobre o momento em que estamos vivendo.

O verdadeiro desafio da Zara

O maior desafio da Zara não será produzir boas peças com Galliano. Será sustentar o discurso que essa parceria inaugura. Quando uma marca desse porte fala em autoria, processo e reescrita, ela eleva o próprio patamar de cobrança.

Se conseguir equilibrar escala e integridade criativa, a Zara pode inaugurar um novo modelo de moda global, situado entre o industrial e o autoral. Se não conseguir, o risco é transformar um gesto histórico em apenas mais um capítulo ruidoso.

Talvez o mais importante seja isto: pela primeira vez em muito tempo, uma grande empresa de moda não está apenas perguntando o que vender, mas como pensar moda.

E essa mudança de pergunta, por si só, já desloca todo o debate.

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