Copenhague Fashion Week SS27

CPHFW SS27: as maiores lições de moda de Copenhague

Falar de Copenhague é sempre afetivo para mim. A cidade guarda uma possibilidade profissional que não se concretizou, mas transformou a forma como passei a olhar para a moda escandinava: pelas ruas, pelas lojas, pelas marcas e pela vida cotidiana que vivi enquanto morei lá.

A coleção que poderia ter existido

Durante muitos anos, a moda escandinava foi reduzida a um vocabulário previsível: minimalismo, funcionalidade, tons neutros, design limpo, silhuetas práticas. Essa leitura já não basta. Copenhague não é apenas uma estética. É uma forma de viver.

Depois da experiência na Burberry, em Londres, fui selecionada para trabalhar com desenvolvimento de produto na Stine Goya. O contrato chegou a ser enviado, mas a formalização não aconteceu. A pandemia fechou fronteiras, e aquilo que parecia um futuro imediato se transformou em pausa.

Morei quase um ano em Copenhague. Observei a moda escandinava de perto: nas marcas, nas lojas, nas ruas e no uso cotidiano das roupas. Nesse período, também me dediquei à criação do My Fashion Blomme e escrevi meu primeiro livro  “Amanda Brandt: uma garota nos bastidores da moda” . Depois, voltei para a Itália, onde segui trabalhando com produto e ensino de moda.

Por isso, acompanho a Copenhagen Fashion Week sempre com atenção.

A edição SS27, realizada entre 3 e 7 de agosto de 2026, ano em que a Copenhagen Fashion Week celebra seu 20º aniversário, confirma algo que me interessa profundamente: mais do que mostrar roupas, a semana pergunta o que faz uma roupa merecer existir. 

Ao mesmo tempo, a edição SS27 representa um momento importante de expansão internacional do evento. Em seu 20º aniversário, a Copenhagen Fashion Week apresentou um calendário ampliado, com 34 shows e apresentações, fortalecendo o diálogo entre marcas nórdicas, nomes internacionais, novos talentos e iniciativas conectadas à sustentabilidade.

A força da Copenhagen Fashion Week está em articular passarela, rua, curadoria, comunidade, novos talentos, sustentabilidade e cidade como partes de um mesmo sistema.

Nesse contexto, a roupa precisa responder a perguntas mais amplas: como foi pensada, como será usada e quais valores comunica.

Os desfiles que mais me interessaram em Copenhague

Stine Goya ocupa, para mim, um lugar inevitavelmente emocional. A marca representa uma Copenhague menos austera do que o imaginário escandinavo convencional. Fala por cor, estampa, feminilidade gráfica, styling vivo e uma relação quase afetiva com o vestir.

Se a Burberry carrega o peso do arquivo britânico, da estrutura e da herança, Stine Goya oferece outra pergunta: como transformar leveza em assinatura?

Ver Stine Goya de volta ao calendário oficial da Copenhagen Fashion Week foi revisitar uma possibilidade que não aconteceu, mas que mudou meu olhar sobre a moda.

By Malene Birger me interessa pelo retorno de uma elegância silenciosa, madura e institucional. Em uma semana marcada por cor, juventude e energia visual, a marca reposiciona a força da roupa adulta: acabamento, permanência, proporção e uma feminilidade menos performática. É uma leitura importante para pensar produto com longevidade.

Collina Strada foi um dos movimentos mais estratégicos da edição, na minha leitura. Como primeira marca convidada pelo novo programa International Guest Slot da Copenhagen Fashion Week, trouxe uma leitura internacional para um calendário historicamente nórdico. Segundo a Harper’s Bazaar, Hillary Taymour desenvolveu a coleção a partir de materiais deadstock remanescentes de seu estúdio, transformando a restrição em ponto de partida criativo. 

O mais interessante não é apenas sua presença, mas a escolha de uma marca que dialoga com responsabilidade, comunidade, expressão e crítica ao sistema tradicional da moda. Copenhague não importou apenas visibilidade. Importou afinidade de valores.

OpéraSPORT traduziu muito bem a força comercial da moda de Copenhague: leveza, desejo, imagem de verão e roupa com potencial real de circulação. A marca constrói uma estética visual e usável ao mesmo tempo. Esse equilíbrio é raro. Não se trata de fazer uma roupa apenas bonita para a passarela, mas de criar peças que entram no imaginário, no guarda-roupa e no comportamento.

Anne Sofie Madsen chamou atenção pela capacidade de articular experimentação, construção e colaboração. A presença da Nike, traduzida em camisetas retrabalhadas e na criação de um calçado em parceria com a marca, acrescentou uma camada importante à discussão sobre reconstrução de produto e deslocamento dos códigos esportivos para uma linguagem mais autoral.

Aqui, o trunfo é o gesto de transformar algo reconhecível em outra coisa: não apenas citar uma referência, mas reeditá-la.

Stem, na minha leitura, está entre as marcas mais relevantes desta temporada quando penso em produto, desenvolvimento técnico e sustentabilidade aplicada. Integrando o programa CPHFW NEWTALENT, a marca apresenta uma proposta em que material, processo e forma são concebidos como parte de um mesmo sistema, e não como etapas independentes da construção da coleção. 

Em vez de tratar sustentabilidade como discurso ou atributo complementar, a Stem a incorpora diretamente na estrutura do produto. Ela aparece na superfície dos tecidos, na lógica da modelagem, na construção das texturas e nos métodos de produção. O resultado é uma linguagem visual que nasce das próprias decisões técnicas, tornando difícil separar inovação, estética e responsabilidade ambiental. É precisamente nessa integração que a marca se diferencia: a sustentabilidade não é comunicada depois do produto, ela é o próprio ponto de partida do design.

A presença da The Royal Danish Academy reforçou a importância de olhar para Copenhague como um laboratório de formação, onde muitas das transformações da moda começam a ganhar forma antes de chegarem ao mercado. As escolas e os novos talentos frequentemente revelam os sinais mais sensíveis das mudanças culturais, estéticas e sociais que irão influenciar a indústria nos próximos anos.

O desfile de graduação reuniu 14 criativos de 9 nacionalidades, refletindo a diversidade de perspectivas que atravessa a nova geração do design de moda.

Os projetos exploraram temas como sustentabilidade, identidade e diversidade não como tendências passageiras, mas como questões estruturais que impactam a forma de pensar produto, processo e cultura. 

Como professora, existe algo particularmente valioso em acompanhar esse momento de perto. É uma oportunidade de perceber as perguntas, inquietações e referências que estão moldando o pensamento dos futuros profissionais da indústria. A pluralidade de origens e abordagens apresentada pela Royal Danish Academy reafirma seu papel como um dos principais centros de formação em design da Escandinávia e um observatório privilegiado para compreender os caminhos que a moda começa a construir. 

Além das marcas que citei, outras também apareceram com força na temporada: Baum und Pferdgarten, The Garment, Herskind, Skall Studio, Gestuz, MKDT Studio, Mfpen, Studio Constance, SSON, Renè e Taus. Vale acompanhar.

Cada uma contribuiu para diferentes camadas da moda em Copenhague: alfaiataria, circularidade, design atemporal, novos talentos, identidade nórdica e produto com uso real.

A roupa precisa circular

A Copenhagen Fashion Week tem uma relação singular com a rua. Em outras capitais, o street style muitas vezes aparece como espetáculo paralelo. Em Copenhague, ele parece mais integrado ao produto.

A roupa precisa circular. Não basta funcionar na imagem. Ela precisa funcionar na bicicleta, na sobreposição, no almoço, no showroom, na calçada, na vida.

Essa é uma das lições mais fortes da moda escandinava: desejo não precisa significar distância. Muitas vezes, desejo significa inteligência de uso.

Uma peça desejável não é apenas aquela que se impõe como exceção, mas aquela que reorganiza o cotidiano com precisão.

O que Copenhague me deixou

A pergunta não é o que teria acontecido se eu tivesse trabalhado na Stine Goya. Essa seria uma leitura nostálgica demais. A pergunta mais interessante é: o que esse quase acontecimento deixou como método?

Talvez Copenhague tenha reforçado em mim a percepção de que uma coleção não é apenas uma sequência de looks. É um sistema de escolhas. Uma relação entre produto, narrativa, materialidade, styling, comunidade e mercado.

A colaboração com Stine Goya não aconteceu naquele momento. A Dinamarca fechou. A Itália voltou a ser rota. Mas Copenhague permaneceu como lente: uma forma de olhar a moda como um sistema que integra mercado, linguagem e construção de valor, com menos pressa e mais intenção.

Sobre a autora

Fernanda Zeemann é especialista em desenvolvimento de produto de moda, professora do Istituto Marangoni, em Florença, e da Accademia del Lusso, em Roma, além de pesquisadora dos processos que conectam criação, produto e estratégia no mercado de luxo.

Com experiência profissional em marcas como Versace, Marni e Burberry e trajetória acadêmica entre Paris, Florença e Roma, dedica-se a analisar como as marcas transformam herança, inovação e visão criativa em valor.

Seus textos investigam a moda a partir da perspectiva do produto, da construção de marca e da cultura material contemporânea.

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