Os consumidores que vão redefinir o desejo, o estilo e o consumo até 2029.
Ao analisar as transformações recentes do setor, observo que a próxima revolução da moda não virá apenas de novas tecnologias, materiais inteligentes ou inteligência artificial, mas de uma mudança mais profunda: a maneira como as pessoas atribuem valor às coisas.
Essa é uma mudança que acompanhamos no Observatório My Fashion Blomme e que também aparece nas projeções dos principais observatórios de comportamento e consumo.
Depois de anos marcados pelo excesso de informação, tendências, estímulos, lançamentos e possibilidades, o consumidor passa a formular perguntas mais difíceis:
- Isso realmente importa para mim?
- Isso melhora a minha vida?
- Quem está por trás disso?
- Posso participar?
- O que vai permanecer quando a novidade passar?
As diferentes respostas a essas perguntas revelam quatro novos perfis culturais. Eles não são grupos fechados, mas representam estados de espírito que atravessam gerações e estilos de vida.
Para as marcas, esses perfis não devem ser tratados como segmentos fixos, mas como referências capazes de orientar decisões de produto, linguagem, experiência e relacionamento.
Conhecê-los é fundamental para quem trabalha com moda, pois eles ajudam a compreender mudanças nas expectativas, nos critérios de escolha e na relação das pessoas com produtos e marcas.
1. Perfil curioso: o futuro é um playground
O primeiro perfil que identificamos é movido por curiosidade, aprendizado e experimentação.
Para essas pessoas, a identidade não é uma assinatura permanente, mas uma construção fluida, que pode ser editada, remixada e reinventada ao longo da vida.
Em um mundo em que a inteligência artificial amplia o acesso a ferramentas de produtividade e desempenho, a verdadeira vantagem passa a ser outra: a capacidade humana de imaginar.
Esse consumidor usa a tecnologia para abrir caminhos, não para limitar possibilidades. Quer aprender uma nova técnica, mergulhar em uma subcultura, testar um material inusitado, viajar para o desconhecido ou simplesmente vestir algo que jamais usaria antes.
Para esse perfil, crescimento não significa subir degraus em uma hierarquia, mas ampliar conhecimentos e experiências.
Na moda:
A roupa se torna uma ferramenta de exploração. Devem ganhar força as peças transformáveis, o styling modular, os materiais inesperados e as colaborações improváveis entre moda, arte, gastronomia, música e tecnologia.
Uma marca relevante para esse perfil não entrega apenas um produto; ela oferece uma porta de entrada para um novo universo de referências, conhecimentos e experiências.
Isso pode se traduzir em uma coleção acompanhada de workshops com artistas, uma flagship que funciona como laboratório ou uma peça customizável, capaz de acompanhar as transformações de quem a veste. O produto deixa de ser o ponto final da compra e passa a ser o ponto de partida de uma experiência.
- O que procura: produtos que estimulem a criatividade, experiências imersivas, acesso a especialistas, peças versáteis, novas culturas e marcas que incentivem a descoberta em vez de apenas reproduzir tendências.
- Por que aceita pagar mais: porque reconhece valor naquilo que expande seu repertório, seja uma experiência, uma habilidade, um acesso, uma história ou uma nova possibilidade.
- O sinal cultural: em vez de perguntar “O que está na moda?”, esse consumidor pergunta: “O que eu ainda não conheço?”
2. Perfil curador: o novo luxo é aquilo que permanece
Como costumamos destacar aqui no My Fashion Blomme, em uma cultura marcada pela valorização do efêmero, surge algo extraordinariamente desejável: a permanência.
Esses consumidores buscam aquilo que resiste ao tempo. Não por rejeitarem a tecnologia, mas porque distinguem a inovação relevante da novidade passageira.
Querem saber quem desenhou a peça, de onde veio a matéria-prima, como essa peça pode ser reparada e quem poderá herdá-la no futuro. Para eles, o valor não se encerra no ato da compra: está também naquilo que permanece.
Esse comportamento pode ganhar relevância em um cenário marcado por vidas mais longas, novas configurações familiares e maior atenção ao legado destinado às próximas gerações. Nesse contexto, o ato de consumir passa a ser encarado como um exercício de curadoria do patrimônio pessoal.
Na moda:
O guarda-roupa se transforma em arquivo. Uma jaqueta é consertada em vez de descartada. Uma bolsa atravessa gerações ou circula entre amigos. Uma técnica artesanal encontra novas possibilidades de continuidade porque as novas gerações decidem aprendê-la e reinterpretá-la.
O mercado de resale deixa de ser apenas uma escolha econômica e passa a fazer parte da trajetória e da narrativa do produto.
Marcas que documentam seus processos, valorizam as pessoas envolvidas na produção e oferecem serviços de reparo e customização conquistam uma nova camada de credibilidade diante desse consumidor. O futuro do luxo tende a ser menos sobre “limited edition” e mais sobre “long life”.
- O que procuram: qualidade comprovada, materiais resistentes, possibilidade de reparo, transparência, excelência artesanal e peças com história, capazes de atravessar diferentes momentos da vida.
- O que não toleram: greenwashing, discurso sem prática e promessas de qualidade não comprovadas. Para esse perfil, declarar compromisso não basta: é preciso demonstrá-lo.
- O sinal cultural: o maior símbolo de status deixa de ser apenas o último lançamento para se tornar aquilo que permanece relevante.
3. Perfil presente: uma vida boa não precisa ser otimizada
Após uma década de obsessão pela otimização, da carreira ao sono, da alimentação à rotina, surge um consumidor orientado por uma pergunta essencial: e se eu simplesmente quiser viver bem?
Esse perfil está redefinindo a ideia de sucesso. Não busca o minimalismo radical, mas atribui mais significado àquilo que decide manter.
Cansado da busca ininterrupta pela “melhor versão de si mesmo”, passa a priorizar ritmo, conforto tátil, intimidade e presença. Não se trata de alienação, mas da retomada do controle sobre a própria atenção.
Na moda:
O conforto ganha sofisticação e se distancia do estigma de desleixo. Silhuetas relaxadas, tecidos ultrassensoriais, roupas transicionais que transitam entre o loungewear e o uso nas ruas e objetos que enriquecem os rituais cotidianos ganham protagonismo.
A moda deixa de privilegiar o impacto estético imediato para focar em como a peça faz o consumidor se sentir ao longo do tempo. É a celebração do prazer de repetir: o mesmo casaco perfeito, a assinatura olfativa de sempre, o jeans favorito.
Em meio ao ritmo frenético do consumo instantâneo, a repetição transforma-se em um ato de resistência elegante.
- O que procuram: conforto refinado, experiência sensorial, durabilidade, objetos associados a rituais cotidianos e produtos que proporcionem prazer genuíno à rotina, sem pressa.
- O novo desejo: menos sobre viajar mais, mais sobre habitar melhor o presente. Menos sobre acumular roupas, mais sobre amar as peças que já possuem. Menos sobre fazer tudo, mais sobre escolher aquilo que merece energia.
- O sinal cultural: esse consumidor eleva o tempo à categoria de luxo, uma das ideias mais potentes para a moda de 2029.
4. Perfil influente: eles não querem ser audiência
Esse perfil representa o consumidor que reconhece que qualquer pessoa pode propor uma estética, mobilizar uma comunidade ou subverter uma tendência. Por isso, não aceita ocupar o papel de simples espectador: reivindica influência real.
Esse consumidor não se satisfaz em votar com o cartão de crédito. Ele quer ver o impacto concreto de sua voz. Se uma marca pede feedback, ele acompanha o desdobramento. Se uma coleção é rotulada como cocriada, ele investiga quem realmente participou das decisões. Para ele, participação sem poder de decisão é mera encenação.
Na moda:
A comunidade se torna coautora do processo criativo. As marcas abrem seus processos de design, convidam clientes para testar protótipos e estabelecem plataformas nas quais criadores e consumidores participam ativamente dos rumos do negócio.
O modelo unidirecional, em que a marca cria e o cliente consome, perde espaço e cede lugar a formas mais colaborativas de criação.
Essa dinâmica transforma também a noção de identidade. O indivíduo recusa ser rotulado por uma única estética: transita entre o vintage e o futurista, o minimal e o maximalista, bem como entre códigos tradicionalmente associados ao feminino e ao masculino.
Many selves. A identidade deixa de ser entendida como uma declaração estática e passa a ser vivida como um processo em constante evolução.
- O que procuram: cocriação autêntica, representatividade com participação efetiva, acesso a comunidades ativas, marcas conectadas aos contextos culturais nos quais estão inseridas e transparência nos processos decisórios.
- O maior risco para as marcas: a ilusão de escuta.
- Esse consumidor tende a perceber a distância entre a participação efetiva e uma ação criada apenas para produzir uma imagem de colaboração.
- O sinal cultural: esse perfil não busca apenas um assento à mesa: quer ajudar a decidir o menu.
O que estes consumidores têm em comum?
Embora distintos, os quatro perfis reagem a uma mesma força cultural: o desejo de recuperar a capacidade de escolha e de participar ativamente da construção do futuro.
Seja para ampliar conhecimentos e experiências, preservar o que tem valor, habitar melhor o presente ou influenciar as decisões do mercado, todos compartilham uma mesma premissa: “Não quero apenas consumir o futuro. Quero participar de sua construção.”
O que isso significa para o mercado?
Isso significa abrir caminhos para a descoberta, comprovar a qualidade prometida, criar produtos que respeitem diferentes ritmos e permaneçam relevantes ao longo do tempo, além de compartilhar decisões com as pessoas que participam da construção da cultura.
O produto permanece central, mas já não é suficiente. O diferencial competitivo passa a incluir todo o ecossistema que o envolve, antes, durante e depois da compra:
- Quem criou? Por quê? Com quem? Para quê?
- Qual é a sua durabilidade? Como ele se transforma?
- Quem pode participar dessa narrativa?
- E a pergunta definitiva: este produto continuará fazendo sentido amanhã?
Quais são os novos valores na moda?
Na perspectiva de 2029, o conceito de luxo pode incorporar quatro novas dimensões de valor, associadas aos perfis de consumidores que identificamos:
- CURIOSIDADE: acesso a conhecimentos, experiências e universos ainda inexplorados.
- CONTINUIDADE: produtos que acumulam valor, significado e história com o passar do tempo.
- PRESENÇA: a capacidade de desfrutar plenamente o presente e aquilo que já se possui.
- INFLUÊNCIA: o poder legítimo de participar das decisões e contribuir para aquilo que está sendo construído.
Em síntese, o próximo capítulo da indústria dependerá menos de prever o que as pessoas vão vestir e mais de compreender quem elas desejam se tornar e quais valores pretendem expressar por meio de suas escolhas.
Sobre a autora
Sobre a autora
Fernanda Zeemann é especialista em desenvolvimento de produto de moda e pesquisadora da interseção entre criação, materialidade e estratégia de mercado. Professora no Istituto Marangoni (Florença) e na Accademia del Lusso (Roma), soma experiência prática em equipes de produto e pesquisa de materiais para marcas como Versace, Marni e Burberry. Seus textos articulam origem do conhecimento, coerência de coleção e implicações estratégicas para marcas que buscam transformar herança e inovação em valor durável.
