Se existe um dia capaz de resumir o estado atual da moda londrina, é o chamado “Super Sunday”. Neste 20 de setembro, a London Fashion Week colocou em cena alguns dos nomes mais interessantes — e aguardados — da temporada Spring/Summer 2027.
De um lado, o retorno de Mulberry à passarela londrina, agora sob a direção criativa de Christopher Kane. Do outro, Alexander McQueen de volta à sua cidade natal depois de anos apresentando suas coleções em Paris. E, entre os grandes nomes do calendário, Simone Rocha e Erdem reafirmando que, em Londres, o vestido de ocasião nunca precisa ser exatamente o que parece.
Desde que trabalhei na Burberry, acompanho a London Fashion Week com especial interesse. Historicamente, Londres tem funcionado como um território fértil para a experimentação criativa, mas também para observar como novas linguagens de produto, coleção e posicionamento começam a ganhar forma antes de se consolidarem em outros mercados.
Vejamos.
Simone Rocha: romance, drama e uma dose de realidade
Simone Rocha sabe fazer aquilo que poucas designers conseguem: transformar romantismo em uma linguagem própria. Seus laços, babados, rendas, transparências e rosas continuam reconhecíveis à primeira vista, e isso não é necessariamente repetição. É código de assinatura.
Para a Spring/Summer 2027, Rocha voltou a explorar o território de suas criaturas românticas e quase fantásticas, mas com uma tensão mais sombria e histórica. O resultado é menos “princesa” e mais heroína de um conto de fadas que definitivamente não foi escrito para crianças.
O vestido de ocasião aparece aqui com um twist muito Rocha. Pense em minivestidos trapézio sem alças, saias e vestidos de noite cobertos de paetês combinados a tops que lembram lingerie e uma profusão de rosas. É o tipo de roupa que poderia aparecer em um tapete vermelho, mas que também funciona quando a vida real exige um pouco mais de fantasia.
E talvez essa seja justamente a parte mais interessante do trabalho de Rocha hoje: por trás do drama, existe sempre uma porta de entrada para a vida cotidiana.
O resultado é uma coleção que amplia a permanência do vestido de ocasião dentro do guarda-roupa, aproximando categorias tradicionalmente associadas a eventos especiais de produtos com maior potencial de uso recorrente.
A coleção trouxe minivestidos de veludo azul fáceis de imaginar no guarda-roupa real, blusões volumosos elevados por detalhes florais, tricôs de gola V, coletes, vestidos fluidos de seda, parkas decoradas e camisas de corte masculino em lavanda combinadas a saias amplas de tafetá.
Em outras palavras: você não precisa estar prestes a se casar ou receber um convite para o Met Gala para entrar no universo Simone Rocha.
Essa ampliação de contexto sugere um movimento relevante de coleção, no qual categorias tradicionalmente ligadas ao vestir de ocasião passam a dialogar com momentos mais amplos de consumo e uso.
E isso explica também o impacto de sua colaboração com a adidas. Revelada originalmente no desfile de outono/inverno 2026 e lançada globalmente em setembro, a parceria coloca o romantismo de Rocha em contato direto com o sportswear. Laços, pérolas, cristais e feminilidade encontrando a linguagem atlética da adidas. O resultado é exatamente o tipo de colisão estética que a moda contemporânea adora: balletcore encontra streetwear, delicadeza encontra performance.
Erdem: quando o vestido de festa fica mais interessante
Se Simone Rocha transforma o cotidiano em fantasia, Erdem Moralıoğlu faz o movimento inverso: pega o glamour e o torna mais complexo, mais estranho, mais contemporâneo.
Para a Spring/Summer 2027, o designer voltou seu olhar para Barbette, o célebre trapezista e performer americano que construiu uma persona feminina nos palcos das décadas de 1920 e 1930 e fascinou artistas como Jean Cocteau e Man Ray.
A ideia de transformação, e a tensão entre masculino e feminino, atravessou toda a coleção.
O romantismo característico de Erdem continua ali, mas agora aparece em diálogo com alfaiataria, coletes, calças e estruturas mais masculinas. Penas de avestruz, rendas, aplicações florais, bordados de pedrarias e franjas de seda entram em cena sem pedir licença.
É couture? Tem a atitude de couture. Mas a mensagem é menos sobre “vestir-se para uma ocasião” e mais sobre decidir o que uma ocasião significa para você.
Os minivestidos de seda, por exemplo, brincam com o contraste entre superfícies propositalmente amassadas e corpetes densamente bordados. Outros modelos combinam comprimentos tea-length, drapeados generosos, renda e cristais.
O resultado tem aquela qualidade rara de uma peça que parece extremamente elaborada, mas que ainda desperta vontade de ser usada.
E talvez seja justamente aí que esteja o apelo de Erdem para uma geração mais jovem: o glamour não desapareceu, ele simplesmente ganhou outra personalidade.
Ao aproximar o vestir formal de peças mais versáteis, Erdem expande o uso dessas criações no guarda-roupa contemporâneo sem perder sua essência.
Mulberry e Christopher Kane: os anos 1960 voltam, mas sem nostalgia literal
Se havia um retorno que dominava as expectativas da London Fashion Week, era o de Christopher Kane na Mulberry.
Kane fechou sua marca homônima em 2023 e agora inicia um novo capítulo como diretor criativo de ready-to-wear feminino da Mulberry. Para a estreia, trouxe sua irmã e colaboradora de longa data, Tammy Kane, e encontrou uma maneira bastante inteligente de aproximar roupa e acessório. Afinal, a bolsa continua sendo o coração comercial da casa britânica.
A referência aos anos 1960 aparece logo de cara: minissaias, silhuetas mais próximas ao corpo, vestidos com camadas horizontais, casacos geométricos e conjuntos de linhas precisas.
Mas não espere uma fantasia literal de “Swinging London”.
A ideia é muito mais interessante: Kane pega códigos que poderiam ter sido usados há seis décadas e os filtra pelo século XXI. Sai a fantasia retrô, entra uma espécie de minimalismo britânico com atitude.
A paleta segue esse caminho. Cinzas, branco, azul, bege, preto e amarelo-limão dominam a coleção, com o característico tom mulberry funcionando quase como uma assinatura cromática.
O grande golpe de mestre, porém, está nos detalhes.
Kane reinterpretou as formas recortadas da aba da Bayswater, uma das bolsas mais emblemáticas da Mulberry, transformando esse desenho em um motivo recorrente nas barras, golas, decotes e acabamentos de casacos e jaquetas.
É uma espécie de easter egg fashion: você olha para o vestido, depois para a jaqueta, depois para a saia e percebe que, de alguma maneira, está olhando para uma bolsa.
A estratégia é particularmente esperta porque a coleção não depende de logos explícitos para dizer “isto é Mulberry”. A identidade da marca está incorporada à própria construção das roupas.
E existe ainda uma segunda camada: Kane não tenta competir com o principal território da Mulberry. Ele o expande.
A marca continua profundamente associada à marroquinaria, mas agora suas bolsas contaminam o ready-to-wear, e vice-versa. A Bayswater deixa de ser apenas uma bolsa para se tornar uma espécie de gramática visual.
Do ponto de vista de posicionamento, a estratégia é particularmente relevante porque transforma um dos ativos mais reconhecíveis da marca em linguagem de coleção. Em vez de ampliar o portfólio por adição de novos códigos, Kane fortalece a conexão entre produto, marca e ready-to-wear.
O novo dress code londrino
O que conecta Simone Rocha, Erdem e Christopher Kane talvez seja menos uma tendência específica e mais uma mudança de atitude.
Durante muito tempo, “occasionwear” significava saber exatamente para qual evento uma roupa deveria ser usada; foi tratado como uma categoria relativamente delimitada dentro das coleções. Casamento. Gala. Tapete vermelho. Coquetel. Formatura.
A London Fashion Week SS27 parece propor outra leitura: e se a ocasião for simplesmente sair de casa e querer causar uma impressão?
O vestido de festa encontra o cotidiano. A alfaiataria absorve códigos decorativos. Produtos concebidos para momentos especiais passam a dialogar com usos mais frequentes.
Para marcas e equipes de desenvolvimento de coleção, a questão relevante não está apenas na estética dessas propostas, mas na forma como elas reconfiguram os limites entre produto formal, produto social e produto cotidiano.
Rocha traz o romance para o cotidiano. Erdem desmonta as fronteiras entre masculino e feminino. Kane transforma o patrimônio de uma marca de bolsas em linguagem de roupa.
São propostas diferentes, mas todas apontam para a mesma direção.
Vestir-se para uma ocasião já não significa seguir um código, mas construir uma persona.
O que se observa não é necessariamente o desaparecimento do glamour, mas uma mudança na forma como ele é distribuído dentro da coleção.
Essa leitura pode ter implicações diretas para o desenvolvimento de produto, para a construção do mix e para o posicionamento de marcas que buscam ampliar a relevância do vestir de ocasião no mercado contemporâneo.
E, honestamente, isso parece muito mais interessante.
