Existem poucas peças capazes de atravessar séculos sem perder a capacidade de despertar desejo. O trench coat da Burberry é uma delas.
Mais do que um casaco, ele é um daqueles raros objetos que pertencem simultaneamente à história da moda, ao imaginário do cinema e ao repertório do luxo. Sua silhueta é imediatamente reconhecível. Seu legado, incontestável.
Falar sobre o trench coat também é revisitar um capítulo muito especial da minha própria trajetória.
Morei em Londres e trabalhei durante quase três anos na Burberry, experiência que me permitiu entender que, dentro da casa britânica, o trench nunca foi apenas um produto. Ele é o ponto de partida de todas as conversas sobre identidade, herança e inovação.
Por isso foi tão simbólico quando Daniel Lee escolheu justamente um trench coat para abrir seu primeiro desfile à frente da direção criativa da marca, durante a London Fashion Week de fevereiro de 2023. Oversized, desconstruído, com referências grunge e lapelas em pele sintética, o modelo mostrava que, mesmo reinterpretado, o maior ícone da Burberry continua sendo imediatamente reconhecível.
Poucas marcas possuem um símbolo tão forte quanto o trench coat da Burberry.
Sua história começa em 1879, quando Thomas Burberry desenvolveu a gabardina, um tecido revolucionário para a época. Enquanto os impermeáveis existentes eram pesados e pouco respiráveis, sua invenção — um algodão em trama diagonal impermeabilizado antes da tecelagem — oferecia leveza, conforto e resistência inéditos.
Antes de conquistar as ruas de Londres, a gabardina foi testada nas condições mais extremas do planeta. Exploradores como Fridtjof Nansen e Sir Ernest Shackleton levaram a gabardina às expedições polares, submetendo o tecido a intempéries e circunstâncias severas muito antes de ele conquistar as ruas de Londres.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Thomas Burberry adaptou um modelo já existente para atender às demandas dos oficiais do Exército Britânico nas trincheiras. Elementos como as dragonas, as argolas em “D”, a pala frontal e o cinto surgiram como respostas práticas às necessidades do contexto militar. Com o tempo, esses detalhes deixaram de ser apenas funcionais e passaram a compor a identidade visual que ainda hoje torna o trench coat imediatamente reconhecível.
A moda tem dessas ironias. O que nasceu para a guerra tornou-se um dos maiores símbolos de elegância do século XX.
Quando deixou as trincheiras, o trench não perdeu sua autoridade. Apenas mudou de cenário. Primeiro, entrou na vida civil britânica. Depois, encontrou no cinema o espaço ideal para transformar função em desejo.
Humphrey Bogart fez do trench um personagem em Casablanca. Audrey Hepburn transformou a cena final de Bonequinha de Luxo em uma das imagens mais românticas da história do cinema. Catherine Deneuve, Meryl Streep e Michael Douglas vieram depois, consolidando o casaco como um figurino recorrente de personagens cuja elegância parecia existir sem esforço.
Nenhuma campanha publicitária seria capaz de construir um imaginário tão poderoso.
Ao longo das décadas, tendências vieram e partiram. O minimalismo dos anos 1990, o maximalismo dos anos 2000, o quiet luxury, o retorno da alfaiataria. O trench coat permaneceu acima de tudo isso.
É justamente essa estabilidade que o torna tão contemporâneo.
O que faz do trench coat uma peça rara não é apenas sua permanência formal, mas sua capacidade de continuar funcional, simbólico e desejável ao mesmo tempo. Em uma indústria que acelera coleções, microtendências e ciclos de consumo cada vez mais curtos, ele representa quase um manifesto. É uma peça comprada para durar décadas, não temporadas.
Na Burberry, essa permanência também se traduz em excelência técnica. Produzido em Castleford, no Yorkshire, cada trench coat reúne aproximadamente 80 componentes e percorre mais de 120 etapas de fabricação. A gola, um dos maiores orgulhos da maison, exige mais de 180 pontos feitos à mão para alcançar sua curvatura perfeita. O domínio dessa técnica pode levar mais de um ano de treinamento, refletindo o nível de especialização envolvido na produção da peça.
Esse nível de precisão talvez explique por que o clássico trench continua sendo muito mais do que um best-seller da Burberry. Ele é a expressão máxima do que o luxo deveria significar: inovação, tempo, conhecimento e permanência.
Talvez por ter acompanhado de perto a maneira como a Burberry protege, atualiza e reinscreve seus próprios códigos, eu veja o trench menos como uma peça de arquivo e mais como uma disciplina de marca. Ele ensina que herança não é repetição, mas continuidade construída com rigor.
Em uma indústria obcecada pelo próximo grande lançamento, o verdadeiro privilégio talvez seja justamente possuir algo que nunca precisará ser substituído.
Porque tendências envelhecem. Ícones, não.
Exposição celebra os 170 anos da Burberry no V&A
Para celebrar seus 170 anos, a Burberry apresentará no Victoria & Albert Museum, em Londres, a exposição The Burberry Trench: Crafting an Icon, dedicada à trajetória de seu trench coat, um dos símbolos mais reconhecíveis da moda britânica.
Em cartaz na Prince Consort Gallery, no V&A South Kensington, a mostra reúne peças de arquivo, documentos históricos e criações contemporâneas para percorrer a evolução da peça, de suas origens no final do século XIX à sua permanência como código central da identidade Burberry.
The Burberry Trench: Crafting an Icon estará em cartaz no V&A South Kensington, em Londres, de 21 de setembro de 2026 a 3 de janeiro de 2027.
Confira a exposição: The Burberry Trench: Crafting an Icon no V&A.
