Há perguntas que parecem objetivas, mas raramente são. Como escolher uma escola de moda no exterior é uma delas. Recebo essa pergunta com frequência.
Ela vem de estudantes que ainda estão começando, de mentorandos que querem estudar fora e de profissionais que já atuam na área e sentem que chegou a hora de aprofundar repertório, reposicionar a carreira ou voltar a estudar com mais direção.
Quase sempre, a dúvida aparece em fórmulas parecidas: qual é a melhor escola de moda? Vale mais Paris ou Milão? O ranking importa? O nome da instituição faz diferença?
Na prática, como professora de moda atuando na Itália, penso que o que está em jogo é outra coisa: a relação entre a formação oferecida, o momento profissional de quem escolhe, o repertório que se deseja construir e o mercado que se pretende acessar.
Quando escolhi o Istituto Marangoni, por exemplo, não estava escolhendo apenas uma escola. Eu buscava uma formação mais diretamente ligada ao desenvolvimento de produto — especialmente porque vim da Engenharia de Produção, na UFRJ, já orientada para atuar na indústria da moda.
Também procurava um contexto de mercado e um ambiente capazes de expandir minha leitura da moda. Foi essa combinação que tornou a experiência decisiva na minha trajetória.
O Master em Desenvolvimento de Produto no Marangoni, em Milão, se mostrou uma escolha acertada. A formação reorganizou a maneira como eu compreendo a moda: produto, materiais, coleção, mercado, linguagem, método e posicionamento passaram a operar, para mim, como parte de um mesmo sistema.
Foi também a partir da rede construída na instituição que tive acesso ao processo seletivo da Versace, onde fui aprovada e trabalhei por três anos. Mais tarde, retornei ao Marangoni como professora — primeiro em Paris, lecionando Desenvolvimento de Produto de Moda e Metodologia de Pesquisa, e depois em Florença, onde atuo atualmente.
Talvez por isso eu insista tanto nesta ideia: o nome da escola de moda importa, sem dúvida, mas não trabalha sozinho. O que transforma uma formação em oportunidade é a combinação entre preparo, idioma, portfólio, momento profissional, cidade, rede e objetivo de carreira.
É a partir dessa perspectiva que organizo, a seguir, um conjunto de escolas de moda de referência internacional — não como ranking, mas como uma leitura de formação: o que cada uma oferece, que tipo de perfil costuma favorecer e onde faz mais sentido olhar com atenção.
As escolas citadas pela Vogue Business
Como ponto de partida para quem está pesquisando formação internacional em moda, o artigo publicado pela Vogue Business reúne uma seleção consistente de escolas reconhecidas globalmente e funciona como um guia inicial.
Mas, quando a pergunta deixa de se organizar em torno das escolas mais conhecidas e passa a se concentrar no tipo de formação, essa seleção pode ser reagrupada.
Não para fixar instituições em categorias rígidas, mas para deslocar a leitura do prestígio para a aderência e ajudar quem pesquisa a formular uma pergunta mais precisa sobre o próprio percurso.
Nesse movimento, incluo também a Royal Danish Academy — Copenhague, Dinamarca, que não aparece na lista original da Vogue Business, mas merece entrar na conversa pela coerência da proposta, pelo contexto em que está inserida e pelo tipo de estudante que tende a favorecer.
Essa ampliação não nasce de uma vontade de completar a lista, mas da minha própria vivência profissional e acadêmica na indústria da moda e no ensino internacional.
Ao mesmo tempo, optei por não incluir nesta curadoria três instituições presentes na seleção da Vogue Business — La Cambre, SCAD e Politecnico di Milano — porque as escolas que reuni já contemplam, com mais precisão, os eixos que me interessam aqui: autoria, produto, mercado, luxo e inserção estratégica na indústria da moda.
Isso não reduz a importância dessas instituições. Apenas indica que, para esta leitura, preferi concentrar o recorte em escolas mais diretamente conectadas ao campo da moda tal como ele aparece no horizonte que estou discutindo. Ainda assim, se esse for exatamente o tipo de formação que se busca, vale a pena consultar seus sites com atenção.
1) Quando o que você busca é autoria, pesquisa e linguagem própria
Central Saint Martins — Londres, Reino Unido
A Central Saint Martins talvez seja uma das escolas mais associadas, no imaginário da moda, à construção de linguagem própria. Parte da University of the Arts London (UAL), a instituição reúne cursos em Fashion Design, Fashion Communication e programas de Master que combinam prática criativa, pesquisa e pensamento crítico.
Mais do que formar designers para responder ao mercado, a escola se consolidou como um espaço de experimentação, onde a autoria e a construção de um ponto de vista têm peso central. Não por acaso, nomes como Alexander McQueen, Stella McCartney, John Galliano e Phoebe Philo passaram por lá.
Em Londres, esse percurso ainda se amplia pelo contato com uma das capitais criativas mais relevantes da moda contemporânea.
Royal Academy of Fine Arts Antwerp — Antuérpia, Bélgica
A Royal Academy of Fine Arts Antwerp ocupa um lugar singular no ensino de moda europeu. Sua reputação não se apoia apenas em prestígio histórico, mas na formação de designers capazes de sustentar uma visão própria com rigor, consistência e independência criativa.
O curso articula técnica, pesquisa, reflexão conceitual e experimentação, estimulando os estudantes a desenvolver uma assinatura autoral em vez de apenas responder às tendências do mercado.
A escola está diretamente ligada ao surgimento dos Antwerp Six, grupo que projetou a moda belga internacionalmente e consolidou Antuérpia como um polo de linguagem e inovação. É uma instituição que costuma fazer mais sentido para quem deseja pensar a moda como expressão, construção estética e gesto intelectual.
Royal College of Art — Londres, Reino Unido
No Royal College of Art, a formação em moda se dá inteiramente no nível da pós-graduação, o que já define o tipo de percurso que a escola propõe.
O RCA atrai estudantes que desejam aprofundar pesquisa, método, experimentação e maturidade criativa. O Fashion MA trabalha a moda em relação às transformações culturais, sociais e tecnológicas do presente, enquanto o Textiles MA trata materiais e processos como campos de investigação.
Mais do que uma formação centrada no produto, trata-se de um ambiente em que a prática criativa é atravessada por pensamento crítico. Por isso, costuma ser particularmente relevante para quem já tem uma base sólida e deseja consolidar uma prática mais madura, autoral e investigativa.
2) Quando criação e mercado precisam caminhar juntos
Parsons School of Design — Nova York, Estados Unidos
A Parsons School of Design, integrante da The New School, tornou-se uma referência justamente por articular criatividade e visão estratégica sem dissolver uma na outra.
O Fashion Design BFA conduz os estudantes por um percurso que vai da pesquisa e do desenvolvimento conceitual até a construção de produtos e coleções, equilibrando experimentação e aplicação prática. Em vez de pensar a criação de forma isolada, a escola a insere em diálogo com as dinâmicas da indústria contemporânea.
Essa relação se intensifica pelo contexto de Nova York, onde o ecossistema criativo e empresarial amplia as possibilidades de networking, inserção profissional e contato direto com a realidade do setor.
London College of Fashion — Londres, Reino Unido
O London College of Fashion talvez seja uma das instituições que melhor expressam a complexidade da moda contemporânea como sistema.
Também parte da UAL, sua estrutura reúne cursos que atravessam design, negócios, comunicação, marketing, inovação e gestão. Essa abrangência faz da escola uma referência para quem não quer pensar a moda apenas como criação de produto, mas como um campo onde imagem, estratégia, mercado e cultura se entrelaçam o tempo todo.
Ao longo dos anos, o LCF consolidou uma reputação ligada à formação de profissionais capazes de circular entre diferentes frentes da indústria, e justamente por isso costuma atrair estudantes interessados em compreender a moda em toda a sua amplitude.
Fashion Institute of Technology — Nova York, Estados Unidos
O Fashion Institute of Technology (FIT), integrante da State University of New York (SUNY), mantém uma relação particularmente forte com a lógica concreta da indústria.
Sua história está ligada ao vestuário e aos têxteis, e isso se reflete em uma formação que articula criação, técnica e negócio com forte ênfase na aplicação prática. Áreas como Fashion Design, Fashion Business Management, Textile Development and Marketing e Technical Design mostram como a escola trabalha a moda a partir das diferentes etapas da cadeia produtiva.
Para quem busca uma formação conectada ao funcionamento real do setor — da estruturação do produto à comercialização —, o FIT permanece como uma referência importante.
3) Quando produto, luxo e ecossistema europeu pesam mais
ESMOD — Paris, França
Fundada em 1841, a ESMOD ocupa um lugar central na história do ensino de moda na França. Sua reputação se construiu a partir de uma combinação entre formação técnica, cultura de moda e compreensão de mercado — uma articulação que continua sendo um dos seus traços mais característicos.
Ao trabalhar Fashion Design e Fashion Business em paralelo, a instituição aproxima criação, modelagem, construção de produto e visão estratégica. É uma escola que tende a fazer sentido para estudantes interessados em uma formação capaz de conectar o saber-fazer tradicional às exigências contemporâneas da indústria.
Institut Français de la Mode — Paris, França
O Institut Français de la Mode articula, de forma particularmente clara, três dimensões decisivas da moda francesa: criação, gestão e savoir-faire.
Seus programas atravessam design, management e pesquisa, fazendo da instituição uma referência para quem deseja compreender a moda não apenas como criação de produto, mas também em relação ao sistema do luxo, às maisons e à produção de conhecimento.
Situado em Paris, o IFM reforça ainda mais essa inserção ao operar em estreita proximidade com um dos ecossistemas mais simbólicos e influentes da moda internacional. Por isso, costuma fazer sentido para estudantes que desejam aproximar criação, estratégia e cultura institucional da moda francesa.
Istituto Marangoni — Milão e rede internacional
No meu caso, o Istituto Marangoni não é apenas mais uma instituição desta seleção. Minha relação com a escola faz parte da minha própria trajetória.
Foi lá que cursei o Master em Desenvolvimento de Produto, em um momento em que eu buscava não apenas aprofundar conhecimento, mas reorganizar a minha forma de pensar a moda. O que encontrei foi uma formação capaz de aproximar produto, materiais, coleção, mercado e método dentro de um mesmo sistema de leitura.
Também foi a partir da rede construída ali que tive acesso à oportunidade que me levou à Versace, onde trabalhei durante três anos. Mais tarde, retornei à instituição como professora — primeiro em Paris, depois em Florença.
Talvez por isso meu olhar para o Marangoni seja ao mesmo tempo próximo e crítico: reconheço a força do contexto, da rede e da circulação internacional que a escola oferece, mas também sei que o prestígio de uma instituição não substitui repertório, dedicação, clareza de objetivo e capacidade de transformar formação em ação profissional.
Fundado em Milão em 1935, o Marangoni expandiu-se ao longo das décadas para formar uma rede internacional voltada a moda, design, arte e luxo. Sua força está justamente nessa combinação entre formação especializada, inserção internacional, contato com o mercado e circulação entre diferentes capitais criativas. Para quem busca construir uma trajetória com atuação global, essa dimensão faz diferença.
Accademia Costume & Moda — Roma e Milão, Itália
A Accademia Costume & Moda ocupa uma posição muito particular no contexto italiano, justamente por articular criação, produto, imagem, costume e comunicação.
Sua oferta acadêmica atravessa áreas como Fashion Design, Costume Design, Styling, Fashion Communication e Management, com programas de graduação, Master, Master of Arts e especializações. A escola também destaca projetos e relações com empresas e casas do setor, o que reforça sua inserção em segmentos ligados à alta moda, ao luxo e à cultura visual.
Para estudantes interessados em uma formação que ultrapasse o vestuário como produto e dialogue também com narrativa, comunicação e imaginário, a instituição se mostra especialmente relevante.
Polimoda — Florença, Itália
A Polimoda consolidou-se como uma das principais instituições italianas dedicadas ao ensino da moda justamente por integrar criatividade, técnica e visão de mercado com forte ancoragem territorial.
Em Florença, a escola se beneficia de um contexto historicamente ligado ao Made in Italy, à tradição produtiva e aos setores do luxo. Seus programas em design, negócios, comunicação e gestão aproximam diferentes etapas do processo de criação e desenvolvimento de produto, permitindo compreender a moda como sistema.
Por isso, costuma fazer sentido para estudantes que desejam uma formação conectada à cultura de projeto, à tradição industrial e à construção estratégica de marca e produto.
4) Quando o contexto cultural transforma a formação
Bunka Fashion College — Tóquio, Japão
A Bunka Fashion College ocupa um lugar central na história do ensino de moda no Japão. Fundada em 1919, tornou-se referência por combinar formação técnica sólida com liberdade criativa, em um contexto cultural que ajudou a redefinir a moda contemporânea em escala global.
Sua proposta está associada à construção do vestuário, à modelagem, ao desenvolvimento de produto e à compreensão dos processos que sustentam a criação, mas também ao diálogo com as transformações estéticas e culturais da sociedade japonesa moderna.
Nomes como Yohji Yamamoto, Kenzo Takada, Junya Watanabe e NIGO ajudam a dimensionar sua influência. Para quem deseja compreender a relação entre técnica, cultura e experimentação a partir do contexto japonês, a Bunka permanece como uma referência incontornável.
Royal Danish Academy — Copenhague, Dinamarca
A Royal Danish Academy propõe uma leitura da moda que ultrapassa o produto para considerar também os sistemas sociais, materiais e produtivos que a sustentam.
O mestrado Fashion, Clothing & Textiles — New Landscapes for Change sintetiza bem esse posicionamento ao articular prática criativa, pesquisa, experimentação material e responsabilidade ambiental. A escola se insere em um contexto cultural em que design, inovação e sustentabilidade já fazem parte de uma discussão mais ampla sobre o futuro.
No meu caso, a experiência de ter vivido em Copenhague me permitiu observar de perto como muitas das questões que hoje ocupam o debate global sobre moda e sustentabilidade já estavam ali sendo formuladas há anos. Por isso, vejo a Royal Danish Academy como uma instituição especialmente relevante para quem quer explorar a moda como campo de pesquisa, transformação e construção de novos modelos para a indústria.
Mais do que uma lista
Cada um desses grupos favorece formas diferentes de construir uma trajetória.
Há escolas mais orientadas à autoria, à pesquisa e à construção de linguagem própria. Outras estruturam melhor a ponte entre criação e mercado. Algumas operam com forte proximidade à indústria europeia, com foco em produto, marca e sistema de moda. Outras, ainda, articulam design, gestão e savoir-faire de forma mais integrada.
É justamente por isso que, para mim, faz mais sentido classificar essas instituições por tipo de formação, e não por “melhores do mundo”. Essa organização ajuda a deslocar a pergunta do prestígio para a aderência, e da fantasia para a estratégia.
Algumas pessoas precisam de um ambiente mais autoral. Outras, de uma formação mais ligada à indústria. Outras, ainda, de uma escola que funcione como ponte entre produto, marca e mercado. E há quem precise, antes de tudo, de uma estrutura que reorganize a própria forma de pensar a moda.
O ponto central, portanto, não é encontrar uma escola “melhor”, mas compreender com mais precisão o tipo de formação que cada instituição oferece. E é também por isso que insisto tanto numa ideia simples: escola não substitui projeto profissional.
Antes de aplicar para uma escola de moda, vale responder com honestidade
- Quero aprofundar linguagem autoral, entrar no mercado ou reposicionar minha trajetória?
- Estou buscando design, produto, comunicação, negócio ou imagem?
- Essa cidade fortalece meu objetivo — ou apenas o meu imaginário?
- Meu idioma, meu portfólio e meu repertório estão à altura desse contexto?
- Estou escolhendo uma escola — ou tentando comprar validação?
Método Blomme
Se essa escolha precisa ser pensada com mais critério — entre formação, portfólio, idioma e mercado — a mentoria de carreira do My Fashion Blomme existe justamente para estruturar essa leitura com mais precisão.
O trabalho parte da trajetória, do repertório e do objetivo profissional de cada pessoa para alinhar decisão, posicionamento e direção de carreira em padrão internacional, com base em um método aplicado com sucesso desde 2020 no acompanhamento de estudantes e profissionais de moda.
Nota
Programas, estruturas curriculares, requisitos de admissão e projetos institucionais podem mudar ao longo do tempo. Por isso, vale sempre consultar os sites oficiais das escolas antes de tomar uma decisão.
Sobre a autora
Fernanda Zeemann é consultora e mentora em moda, com mais de 13 anos de experiência internacional na indústria. Atuou em desenvolvimento de produto e pesquisa de materiais para marcas como Versace e Marni, em Milão, e Burberry, em Londres.
É professora no Istituto Marangoni, em Florença, com experiência docente anterior em Paris, e também na Accademia del Lusso, em Roma. Sua atuação se concentra em desenvolvimento de produto, têxteis, gestão e posicionamento de marcas de moda.
À frente do My Fashion Blomme, trabalha com desenvolvimento de coleções, estruturação de marcas e direcionamento estratégico para projetos no Brasil e no exterior.
My Fashion Blomme opera a moda como sistema, mercado e linguagem.
