Hoje, eu dou aulas de Desenvolvimento de Produto no Istituto Marangoni, em Florença, e na Accademia del Lusso, em Roma. Já tive uma passagem de três anos em Londres e mais alguns anos em Paris, antes de voltar para Roma. E posso dizer que, quando se olha para moda por esse ângulo, a pergunta deixa de ser “qual estética está em alta?” e vira “qual método está funcionando?”.
É por isso que eu me interesso pela ideia de “moda sólida” (em oposição à moda descartável). Só que “moda sólida” virou um termo amplo. E, quando isso acontece, vale voltar ao que é observável.
E essa reflexão me levou à Alaïa, sobretudo no trabalho de Pieter Mulier, como um contraponto.
A mídia veiculou recentemente a nomeação de Pieter Mulier como diretor criativo da Versace, no lugar de Dario Vitale, com início previsto para 1º de julho de 2026.
Acompanho de perto a Versace, casa para a qual trabalhei no desenvolvimento de produto, em Milão. Antes que esse novo ciclo se inicie e antes de projetarmos expectativas sobre ele, parece mais produtivo observar onde o método de Mulier, isto é, a lógica de trabalho construída na prática, está hoje mais claramente formulado.
É nesse sentido que o trabalho na Alaïa interessa: não como antecipação do que virá, mas como expressão madura de um sistema já testado, no qual decisão, repetição e corte, entendido como princípio de construção do corpo e de edição do vocabulário, operam com máxima clareza.
Vejamos, pois.
A saída de Pieter Mulier: encerramento, não ruptura
No dia 30 de janeiro de 2026, a Alaïa anunciou que Pieter Mulier deixaria a direção criativa após cinco anos.
A comunicação foi direta: ele apresentaria a última coleção da casa na Paris Fashion Week, em março, e o estúdio garantiria continuidade durante o período de transição — até que uma nova organização criativa fosse confirmada.
A fala institucional reconhece a visão e o compromisso de Mulier e trata esse período como um capítulo de renovação, sem transformar a saída em espetáculo.
A partir desse pano de fundo, eu não leio essa saída como ruptura, mas como encerramento.
Sem gesto espetacular ou virada abrupta, o ciclo se fecha no próprio trabalho. É nesse sentido que o último desfile deixa de ser apenas um final de temporada e passa a operar como síntese.
O último desfile de Pieter Mulier para Alaïa
Existe algo revelador em uma coleção final: ela costuma mostrar o que o diretor criativo entende, em última instância, como “a casa”.
Há um consenso claro na cobertura crítica desse último desfile, e ele coincide com a minha própria leitura ao assisti-lo.
As publicações falam em redução, precisão, edição, e silêncio formal. De fato, o que se viu na passarela confirma isso sem precisar explicar. Não há gesto de despedida nem vontade de encerrar com efeito.
Apresentada na Fondation Cartier, a última coleção de Mulier reduziu o vocabulário ao essencial: vestidos justos ao corpo, alfaiataria precisa, jersey, couro, volumes próximos da silhueta e uma paleta contida. Não houve dramatização nem ornamento excessivo.
Vale lembrar que, embora o desfile tenha ocorrido durante a Paris Fashion Week, a Alaïa não consta como “Member” da Fédération de la Haute Couture et de la Mode (FHCM), mas sim como “Guest”.
Ou seja, a Alaïa não é classificada como maison de haute couture, operando historicamente como prêt‑à‑porter de alto nível, com lógica de atelier e uma relação deliberadamente flexível com o calendário oficial, um posicionamento que nunca dependeu de enquadramento institucional para se afirmar.
A crítica leu o desfile como uma condensação do método desenvolvido ao longo de cinco anos, com a centralidade do corpo, o rigor do corte e a edição como princípios estruturantes.
É nesse sentido que o desfile opera como síntese. Ao escolher mostrar apenas o que sustenta a casa, Mulier não se despede ampliando, mas condensando. E é justamente essa contenção que dá peso ao último gesto.
O “menos” que não é estética
No ritmo atual, a indústria oferece atalhos para o desejo: logo, hype, drop, nostalgia, reedições fáceis. O problema não é existir estratégia, mas quando a marca depende do ruído para funcionar.
O caso Alaïa/Mulier importa porque ele trabalha o oposto: coerência, e o “menos”, aqui, é uma decisão repetida.
E é justamente por isso que eu prefiro deslocar o “menos é mais” para uma formulação mais útil: não se trata de minimalismo como estética neutra, mas de edição como disciplina.
Silêncio estrutural de Pieter Mulier (o nome do gesto)
Quando um sistema de moda é sólido, ele não precisa elevar o tom para existir, ele se sustenta.
O que aparece nessa fase da Alaïa é esse tipo de sustentação: contenção deliberada, precisão, edição. Um vocabulário reduzido não por falta, mas por escolha e muita história. E a mídia descreve esse período de maneira pertinente e precisa.
A Vogue fala em “quiet perfectionism” e registra o gesto de reduzir ao essencial — inclusive com a decisão de tirar acessórios de cena (“no bags, no jewelry”) para deixar só as roupas operarem.
A Harper’s Bazaar sintetiza a mesma direção como uma moda que “cut through the noise” e uma visão de vestir “devoid of tricks or trends” — sem truques e sem tendência como muleta.
Já a ELLE, ao noticiar a saída de Mulier, descreve a abordagem dele como sutil, capaz de partir de ideias ambiciosas e destilar em simplicidade, além de reforçar o fechamento do ciclo sem sucessor imediato e com continuidade assegurada pelo estúdio.
Eu chamo isso de silêncio estrutural: quando a forma é tão resolvida que o produto não precisa gritar, quando o corte faz o trabalho da narrativa e a construção substitui o truque.
Corpo como construção (e não como slogan)
A Alaïa costuma ser resumida como “sexy”, mas eu prefiro outra palavra: structure (estrutura).
Muitos descrevem a influência de Alaïa pela criação de peças que se comportam como “second skin” e por uma reputação construída em corte e construção.
Ele também ignorava o calendário tradicional da moda, trabalhando no próprio ritmo e aperfeiçoando ideias ao longo do tempo.
Quando Mulier chega à Alaïa, ele encontra uma casa em que a forma não funciona como adorno, mas como argumento.
Renovar sem nostalgia (o que quase ninguém faz bem)
Depois da morte de Azzedine Alaïa, seria tentador reativar a marca com reedições e símbolos óbvios.
Mulier escolheu outro caminho: não operar por logomania nem por citação literal de arquivo. Não se trata de ignorar a herança, mas de entendê-la como linguagem.
Eu não quero transformar este texto em biografia. Mas, para entender por que o método aparece com tanta clareza no trabalho de Pieter Mulier, vale observar sua trajetória.
Com formação em design e arquitetura, Mulier foi recrutado por Raf Simons e construiu sua trajetória profissional acompanhando o estilista em casas como Jil Sander, Dior e Calvin Klein. Esse percurso culmina em sua nomeação como diretor criativo da Alaïa, em 2021, tornando-se o primeiro a ocupar o cargo após a morte de Azzedine Alaïa.
Não se trata de uma progressão linear de marcas, mas da repetição de um mesmo ambiente de trabalho: ateliês orientados por rigor formal, centralidade do corte e decisões tomadas a partir da construção.
A ELLE Brasil descreve o método que Mulier reativa na Alaïa justamente nesses termos: silhuetas moldadas ao corpo, costuras reduzidas, uso mínimo de fechamentos tradicionais (como botões e zíperes) e investimento contínuo em construção e modelagem.
O ponto, portanto, é a cultura de estúdio: oficina, corte, decisão. E é isso que ajuda a explicar por que, na Alaïa, “redução” aparece como consequência de um modo de fazer.
Assim, a assinatura aparece como processo.
Três perguntas para levar para coleção e portfólio
A Alaïa por Pieter Mulier recoloca “menos” no lugar certo, não como estética, mas como método; um silêncio estrutural.
Quando esse deslocamento é bem compreendido, ele passa a funcionar como ferramenta de projeto. E é nesse ponto que a análise só faz sentido se terminar em aplicação: em coleção, portfólio, decisão concreta. Por exemplo:
1) Seu produto aguenta silêncio?
Se você tirar styling e ruído, a peça se sustenta por corte, materiais e construção?
2) Sua coleção é argumento ou catálogo?
Vocabulário é repetição com intenção: decisões, silhuetas, materiais. Em portfólio, isso vira consistência.
3) Você está adicionando ou editando?
Quase sempre o salto vem de decidir melhor, não de criar mais.
E você já criou o seu?
Se você leu este texto pensando no seu portfólio ou na sua coleção, talvez a próxima etapa não seja “criar mais”, e sim organizar seu vocabulário: o que você repete, o que você corta e o que sustenta seu método.
Para aprofundar isso com estrutura, eu deixo três caminhos do My Fashion Blomme: Consultoria de Moda (decisões de coleção e posicionamento), Observatório de Tendências (leitura de sinais com método) e Cursos de moda online ao vivo (produto, gestão e formação em italiano para o mercado internacional).
Sobre a autora
Fernanda Zeemann é consultora de moda com mais de 13 anos de experiência internacional na indústria, com atuação em pesquisa de materiais e desenvolvimento de produto para marcas como Versace e Marni, em Milão, e Burberry, em Londres.
É professora no Istituto Marangoni, em Florença, com atuação anterior em Paris, e na Accademia del Lusso, em Roma. Leciona disciplinas voltadas ao desenvolvimento de produto, tecnologia têxtil, brand management e startup management, com foco na estruturação de coleções e na construção, gestão e posicionamento de marcas de moda.
À frente do My Fashion Blomme, atua no desenvolvimento de coleções, na estruturação de marcas e na definição de posicionamento estratégico para projetos no Brasil e no exterior, operando na intersecção entre método, estética e mercado, além de orientação estratégica de carreiras por meio de mentorias.
