Lingeries à vista na moda

Lingeries e discurso feminino: capítulo de Maria Grazia Chiuri

Em junho de 2025, Maria Grazia Chiuri deixou a direção criativa da Dior. Em Roma, sua cidade natal, ela assumiu uma nova missão: a direção do recém-restaurado Teatro della Cometa — espaço histórico que ela adquiriu em 2020. Mas seu legado na moda permanece vivo — e profundamente simbólico para a representação feminina no universo do luxo.

Desde 2016, à frente da Dior, Chiuri escreveu um capítulo essencial na história da moda feminista contemporânea. Não foi a primeira, nem a única, a transformar o corpo feminino em plataforma de discurso. Mas fez isso dentro de uma das maisons mais influentes do mundo, trazendo à tona temas até então raramente abordados com tanta clareza no cenário da alta-costura.

Logo em sua estreia, estampou em camisetas de passarela frases como “We Should All Be Feminists”, dando visibilidade a autoras como Chimamanda Ngozi Adichie. O gesto marcou o início de uma nova fase em que símbolos íntimos — como sutiãs, bodies e corsets — passaram a ser usados como ferramentas de construção identitária, e não mais apenas de sedução.

Lingeries como manifesto: do bustiê à armadura

Nas coleções de Chiuri, lingeries e estruturas clássicas do vestuário feminino foram ressignificadas. Bustiers, corsets e peças de silhueta ajustada apareceram sobre vestidos fluidos ou camisas brancas — uma combinação de suavidade e rigidez, força e sensibilidade.

Desfiles como o de Alta-Costura Primavera-Verão 2017 e o de Prêt-à-Porter Outono-Inverno 2019 apresentaram essas peças como armaduras contemporâneas, retiradas do espaço privado e levadas à superfície do vestir como declarações visuais.

Esse uso da lingerie como símbolo de poder, e não de submissão, dialoga com uma série de criações de outras estilistas que, como ela, ajudaram a construir um novo vocabulário visual para o corpo feminino.

Um discurso coletivo: outras vozes na moda feminista

Maria Grazia Chiuri não está sozinha nesse movimento. Estilistas como:

  • Miuccia Prada, com sua mistura de sensualidade intelectual e crítica cultural;
  • Vivienne Westwood, que, desde os anos 1970, explorava a relação entre erotismo e rebeldia;
  • Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, que desconstruiu o corpo feminino com peças assimétricas e antieróticas;
  • Phoebe Philo, na era Céline, ao valorizar o conforto, a autonomia e a introspecção no vestir;
  • Simone Rocha, que mistura fragilidade e força em roupas ultrafemininas com conteúdo emocional;
  • Jean Paul Gaultier, que, desde os anos 1980, brincava com o corset como símbolo de empoderamento e ironia.

Esses criadores, entre tantos outros, têm usado o vestuário — especialmente o íntimo — como forma de tensionar padrões, provocar discussões e abrir novos espaços de expressão.

A nova estética do íntimo: lingeries como discurso

Hoje, lingeries ressurgem nas passarelas em versões estilizadas, exageradas e até esculturais. A peça íntima deixa de ser funcional ou sexy para se tornar manifesto.

Na última Semana de Moda de Paris, por exemplo, a Vaquera apresentou sutiãs gigantes e escultóricos que desafiaram a lógica do uso — uma provocação performática sobre o que significa vestir.

Como escreve Valerie Steele, diretora do Museu do Fashion Institute of Technology, no artigo Wonder Bras  (Harper’s Bazaar):

“Eles são femininos, mas também fálicos. Apontam para frente. Exigem ser vistos.”

O corpo feminino, agora, não se veste para agradar. Ele comunica, questiona, cria.

O que fica é um discurso que continua se expandindo

A saída de Chiuri da Dior não representa o fim desse pensamento. Ao contrário: ela reforça que esse discurso já foi disseminado, expandido e ressignificado por muitos nomes da moda contemporânea.

A moda feminista de hoje não se limita a slogans. Ela se manifesta nas formas, volumes, desconstruções e até nos exageros. Um sutiã gigante pode dizer mais do que uma camiseta estampada.

Lingeries podem levantar os seios — ou levantar questões. Podem ser funcionais, irônicas, agressivas ou conceituais — mas sempre potentes, quando carregadas de significado.

O que Chiuri fez foi usar o palco da Dior para ampliar uma conversa coletiva. E essa conversa continua.

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