A Semana de Alta-Costura de Paris Outono-Inverno 2026–2027 terminou com uma sensação rara: entre os dias 6 e 9 de julho, Paris recebeu uma temporada em que a moda voltou a pensar por meio da matéria. Mais do que antecipar tendências, esta edição da Paris Haute Couture Week pareceu interessada em afirmar uma linguagem — forma, gesto, silêncio, excesso, memória e precisão.
Quando cumpre o seu papel mais relevante, a alta-costura testa os limites de uma maison. E foi exatamente o que vimos: casas históricas revisitando seus códigos, novos diretores criativos buscando uma voz própria dentro de arquivos poderosos e designers independentes usando a couture como território de invenção absoluta.
Esta leitura parte das observações diretas do nosso Observatório de Tendências. Selecionamos as marcas que mais chamaram nossa atenção pela clareza com que afirmaram linguagem, direção criativa e consistência nesta edição da alta-costura.
Comecemos pelas marcas que deram densidade a esta leitura.
Schiaparelli: o corpo como criatura
A semana abriu com a força inquietante da Schiaparelli. Em The Abyss, Daniel Roseberry levou a maison para um território submerso, entre vida marinha, matéria sintética e mutação corporal. A coleção apresentou experimentos como tentáculos infláveis em látex, corpetes moldados em silicone de aparência gelatinosa e vestidos atravessados por efeitos de luz, em uma paleta que reforçava esse imaginário abissal — areia, rosa, violeta, tangerina, verde-menta e preto.
Mas o ponto mais interessante não estava apenas no impacto visual. Em uma temporada em que a inteligência artificial atravessa cada vez mais o imaginário criativo, Roseberry recolocou em primeiro plano o valor do gesto manual, do desenho e da construção artesanal. Schiaparelli tratou o surrealismo como linguagem viva: uma forma de tensionar corpo, imagem, tecnologia e desejo dentro da alta-costura contemporânea.
Iris Van Herpen: a matéria como energia
Iris Van Herpen levou a alta-costura para uma fronteira rara entre corpo, matéria e energia. Em Sonic Starquakes, a estilista apresentou o vestido Helix Nebula, construído com formas lunares de vidro soprado à mão e preenchidas com plasma — o quarto estado da matéria e um dos componentes físicos das estrelas, segundo a própria maison.
Quando a peça é vestida, o corpo passa a interferir no campo elétrico do plasma, fazendo com que roupa e presença humana se afetem mutuamente. O resultado não é apenas luminoso; é conceitual. A couture deixa de ser somente matéria moldada pela mão e passa a incluir energia, reação e instabilidade como parte da construção da roupa.
Dior: o jardim como escultura
Na Dior, Jonathan Anderson partiu da obra de Lynda Benglis para construir uma couture mais física, mais tátil e menos previsível. A coleção não tratou a arte como referência decorativa, mas como método de construção: plissados, nós, drapeados e superfícies trabalhadas transformaram o tecido em volume, gesto e matéria. A própria Dior descreveu esse processo como uma resposta, em linguagem couture, aos movimentos de transformação presentes na obra de Benglis.
O interessante na Dior é justamente essa passagem entre natureza, escultura e corpo. O jardim — tão presente no imaginário da maison — apareceu menos como ornamento e mais como estrutura sensível: uma natureza dobrada, tensionada, construída pela mão. A feminilidade, aqui, ganha outra densidade. Ela pode nascer da flor, mas também da dobra, do peso, da torção e da matéria.
Chanel: Gabrielle como fábula íntima
Na Chanel, Matthieu Blazy construiu uma couture a partir da biografia de Gabrielle Chanel, como se ela pudesse ser lida como uma fábula moderna. O ponto de partida veio de um livro de contos encontrado no apartamento de Coco, e isso aparece na coleção não como fantasia literal, mas como linguagem: o pé de feijão, as flores, os insetos, os bordados, os forros ilustrados e os detalhes escondidos criaram uma Chanel menos monumental e mais próxima do gesto íntimo.
Blazy transforma intimidade em construção. A força da coleção não estava no espetáculo imediato, mas naquilo que se descobre aos poucos: dentro da roupa, no avesso, no acabamento, no pequeno gesto de ateliê. Gabrielle aparece, então, como uma mulher que inventou sua própria narrativa, e talvez seja aí que a coleção se torne mais Chanel.
Balenciaga: a arquitetura emocional
Na Balenciaga, Pierpaolo Piccioli olhou para Cristóbal Balenciaga não como arquivo a ser copiado, mas como pensamento de construção. A coleção foi marcada por volumes amplos, cores intensas, formas escultóricas e uma relação muito precisa entre tecido, superfície e silhueta.
Piccioli trouxe sua sensibilidade cromática e emocional para dentro da casa, e o resultado foi uma Balenciaga menos fria. Havia drama, sim, mas também humanidade. Como se a forma arquitetônica pudesse voltar a respirar.
Um dos momentos mais expressivos foi a forma como Piccioli encerrou o desfile, trazendo a equipe para junto de si, em reconhecimento ao trabalho coletivo do ateliê.E isso importa muito, porque a alta-costura só existe quando a ideia encontra a mão, o tempo, a escuta e a inteligência de quem transforma desenho em roupa.
Armani Privé: a elegância como permanência
Na Armani Privé, Silvana Armani apresentou Boudoir, uma coleção construída em torno da intimidade, da discrição e do gesto privado de vestir. A própria maison descreve o boudoir como um espaço pessoal, onde a roupa deixa de ser espetáculo para se tornar expressão de um universo interior.
Em uma temporada atravessada por volumes extremos, narrativas fantásticas e experimentações radicais, Armani ofereceu uma resposta mais silenciosa. Em vez de recorrer à grandiosidade, concentrou-se na precisão da construção: calças de presença marcante, jaquetas de alfaiataria rigorosa, vestidos de linhas esculturais, brilhos contidos e uma paleta de “pretos aparentes”, formada por camadas de verdes, marrons, vermelhos amaranto e azuis profundos.
A escolha de colocar a calça no centro da coleção parece especialmente significativa. Em um território tradicionalmente dominado pelo vestido de noite, ela reafirma uma visão de elegância associada à liberdade, ao conforto e à permanência, sem abdicar do refinamento da alta-costura.
Sua força esteve menos no impacto imediato e mais na continuidade de uma linguagem. A geometria, a contenção e o glamour discreto que sempre definiram o universo Armani reaparecem aqui sem nostalgia, mas como códigos ainda capazes de dialogar com o presente.
Armani Privé lembrou que a alta-costura também pode operar pela sutileza: quando a sofisticação não depende do excesso, mas da confiança de uma roupa que conhece exatamente a sua própria medida.
Jean Paul Gaultier: o corpo futurista
Com a estreia de Duran Lantink na direção criativa, a maison Jean Paul Gaultier apareceu como um dos laboratórios mais radicais da semana: uma coleção marcada por estruturas projetadas para frente e para os lados, formas tubulares e referências a Marie Antoinette e ao arquivo performático de Jean Paul Gaultier.
Volumes que avançavam para frente e para os lados, estruturas tubulares e referências históricas deslocadas criaram uma couture quase futurista. Gaultier sempre foi uma maison do corpo reinventado; Lantink atualizou essa herança com uma linguagem mais estranha, tecnológica e provocadora.
Robert Wun: infância e surrealismo
Robert Wun também merece atenção neste balanço, porque levou a infância para um lugar menos literal e mais simbólico. Em sua coleção, referências a brinquedos, balões, personagens e memórias infantis apareceram atravessadas por uma construção extremamente elaborada, com silhuetas escultóricas, proporções deslocadas e uma teatralidade muito própria. O infantil, aqui, não entrou como nostalgia fácil, mas como matéria de linguagem.
Wun mostrou sua capacidade de transformar fantasia em estrutura. A coleção parecia falar de infância, mas também de memória, fragilidade, desejo de proteção e imaginação como força criativa. Em vez de suavizar a couture, a fantasia organizou sua lógica visual: cada figura parecia nascer de um mundo interno, onde o sonho e o estranho convivem na mesma roupa.
Paris Haute Couture Week: o balanço da semana
O que fica desta Paris Haute Couture Week FW 2026–2027 é a percepção de que a moda voltou a buscar profundidade formal. Para mim, a pergunta que atravessou a semana foi mais estrutural do que estética: como uma maison continua relevante?
Cada casa respondeu a partir de seu próprio vocabulário. A Schiaparelli reafirmou o estranhamento como potência visual. Iris Van Herpen colocou a energia no centro da construção. A Dior transformou o jardim e a feminilidade em matéria escultórica. A Chanel encontrou força na intimidade dos detalhes e na releitura sensível de Gabrielle Chanel. Armani Privé lembrou que a permanência também pode ser uma forma de inovação. A Balenciaga retomou a arquitetura da roupa como linguagem de precisão, emoção e impacto. Jean Paul Gaultier levou o corpo para um território de mutação futurista. Robert Wun trabalhou a memória e a infância como matéria surrealista.
Juntas, essas respostas mostram por que a alta-costura permanece indispensável dentro do sistema de moda. Ela opera em outra velocidade. Não corre atrás do agora, nem depende da lógica imediata da tendência. A couture constrói imagem, pensamento e permanência.
Para quem trabalha com coleção, a grande lição da semana está na força da continuidade bem elaborada. A novidade ganha densidade quando nasce de uma linguagem própria, quando amplia os códigos da marca e quando transforma essa inteligência em decisão de forma, produto e posicionamento.
No fim, esta semana nos lembrou algo essencial: quando a moda é realmente elaborada, a roupa é pura linguagem.
Créditos das fontes
Este balanço editorial foi desenvolvido a partir das observações do Observatório de Tendências do My Fashion Blomme, cruzadas com o calendário oficial da Fédération de la Haute Couture et de la Mode, materiais oficiais das maisons e coberturas especializadas.
Fontes consultadas: WWD, Vogue, Harper’s Bazaar, Dezeen, Dior, Iris van Herpen, Chanel, Armani, W Magazine, ELLE, Vogue Brasil e Kendam.
Sobre a autora
Fernanda Zeemann é consultora de moda, com mais de 13 anos de experiência internacional na indústria. Atuou em pesquisa de materiais e desenvolvimento de produto para marcas como Versace e Marni, em Milão, e Burberry, em Londres.
É professora no Istituto Marangoni, em Florença, com atuação anterior em Paris, e na Accademia del Lusso, em Roma. Leciona disciplinas voltadas ao desenvolvimento de produto, tecnologia têxtil, brand management e startup management, com foco na estruturação de coleções e na construção, gestão e posicionamento de marcas de moda.
À frente do My Fashion Blomme, atua no desenvolvimento de coleções, na estruturação de marcas e na definição de posicionamento estratégico para projetos no Brasil e no exterior, operando na interseção entre mercado, linguagem e criação de valor. Também orienta trajetórias profissionais por meio de mentorias estratégicas.
