Em Florença, onde dou aulas no Istituto Marangoni, o histórico Palazzo Settimanni — comprado pela família Gucci em 1953 — é um espaço que permite compreender como a história e o futuro da moda se entrelaçam.
Ao percorrer os corredores do palácio, é possível perceber como cada peça, cada desenho e cada arquivo preservado reflete escolhas criativas e as trajetórias da maison ao longo de décadas.
O Palazzo é um registro vivo da evolução de uma marca que começou com Guccio Gucci, inspirado no universo equestre e na experiência adquirida no Hotel Savoy, em Londres, no fim do século XIX.
Como costumo comentar nas minhas consultorias, os códigos da marca são fundamentais para a continuidade da maison. Cada diretor criativo da Gucci trabalhou com essa base, reinterpretando elementos clássicos e inserindo novas ideias, mantendo o equilíbrio entre passado e futuro.
O ano de 1953 marcou momento importante para a marca.
Além da aquisição do Palazzo Settimanni, a Gucci abriu sua primeira loja em Nova York e lançou o mocassim, que se tornou um dos símbolos da maison.
O sapato combinava a tradição artesanal com uma estética reconhecível, criando um produto ao mesmo tempo funcional e distintivo.
Dois anos depois, surgiram a bolsa Horsebit, com a icônica fivela metálica, e a faixa Gucci Web, a faixa de tecido verde e vermelho que se tornou símbolo da marca, ambas inspiradas na arte florentina e no universo equestre.
Essas peças se tornaram elementos centrais da identidade visual da marca e foram reinterpretadas ao longo das décadas, sob diferentes direções criativas — mais recentemente por Alessandro Michele e, agora, por Demna Gvasalia.
Em 1971, o Palazzo Settimanni passou a ser utilizado como espaço para apresentações de coleções e showrooms, tornando-se palco de eventos que marcaram a história da marca, incluindo o primeiro desfile masculino de Tom Ford, em 1995.
Hoje, o Palazzo abriga elementos icônicos da marca, preservando as peças, os processos e as histórias que lhes deram origem.
Entre os destaques estão a bolsa Bamboo — cuja alça de bambu foi inspirada nas bengalas de Vasco Gucci — e a Jackie, criada em 1961 para refletir o conceito de “casual grandeur” de Aldo Gucci, que posteriormente ganhou uma nova versão por Tom Ford, em 1999.
A valigeria, área dedicada às malas e à bagagem, guarda os primeiros projetos de Guccio Gucci e exemplifica como ele transformou experiências pessoais e profissionais em produtos que se tornaram ícones, incluindo o GG monogram, desenvolvido a partir do padrão diamante criado durante a Segunda Guerra Mundial.
A Sala Flora apresenta outro capítulo da história da Gucci.
O motivo floral, que hoje aparece em lenços, bolsas, sapatos e joias, teve origem em 1966, quando Grace Kelly solicitou um lenço floral que a maison ainda não produzia. O resultado foi o primeiro lenço Flora, que se tornou rapidamente um clássico da maison.
Como professora de moda, vejo na preservação do passado um instrumento essencial para a criação de moda.
O Palazzo Settimanni evidencia que apenas quem compreende a história de uma marca — seus códigos, produtos e processos — consegue interpretar o presente e projetar o futuro.
