A trajetória das estilistas na moda de luxo continua sendo marcada por desafios: embora nomes como Maria Grazia Chiuri, Miuccia Prada e Donatella Versace se destaquem, as mulheres ainda ocupam poucas posições de liderança nas grandes maisons.
A recente nomeação de Maria Grazia Chiuri para a direção criativa da Fendi, após nove anos na Dior, reacende uma questão relevante: a indústria da moda ainda é majoritariamente liderada por homens?
Lembro-me bem do dia em que li sobre sua saída da Dior: Maria Grazia Chiuri anunciava seu retorno a Roma para assumir a reestruturação de um teatro na cidade.
Eu estava justamente em Roma, dando aula, quando soube, e essa notícia despertou imediatamente minha curiosidade: por que ela estava deixando a linha de frente da moda? Enfim, mais uma diretora que se vai, pensei na hora.
Mas, mais do que uma história pessoal, trata-se de uma realidade maior: uma das poucas mulheres em cargos de liderança na moda parecia estar se retirando.
Embora mulheres como Chiuri venham se destacando com grande competência no mundo da moda, ainda são poucas as que conseguem ocupar posições de liderança nas grandes maisons.
Como registramos em nosso Observatório de Tendências, nas Fashion Weeks de Primavera/Verão de 2026, diversas maisons apresentaram suas coleções sob a direção de novos estilistas, revelando mudanças e novidades na cena criativa global.
Em Paris, Chanel, Dior, Balenciaga, Loewe e Jean Paul Gaultier apresentaram suas primeiras coleções assinadas por novos diretores criativos. Em Milão, Gucci, Versace e Bottega Veneta seguiram o mesmo caminho.
Curiosamente, apenas uma das novas nomeações foi feminina: a britânica Louise Trotter, que assumiu a direção criativa da Bottega Veneta.
Para reforçar a predominância masculina, Matthieu Blazy e Jonathan Anderson ocuparam os cargos de Virginie Viard e Maria Grazia Chiuri, respectivamente.
“Antes da pandemia, parecia que um pequeno espaço para as mulheres estava começando a se abrir”, afirma Karen Van Godtsenhoven, especialista em moda e curadora da exposição Women Dressing Women, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, em 2023. “Porém, a Covid trouxe de volta mentalidades mais conservadoras, e a indústria voltou a valorizar o designer homem”, completa Van Godtsenhoven.
Para a jornalista americana Dana Thomas, autora dos livros Deluxe: How Luxury Lost Its Luster e Fashionopolis: The Price of Fast Fashion and the Future of Clothes, esse retrocesso é um reflexo do poder concentrado nas mãos de executivos conservadores, geralmente à frente de gigantes como LVMH, Kering e Chanel.
“Chanel, criada pela mulher mais influente da história da moda, Coco Chanel, perdeu uma oportunidade ao não escolher uma mulher para o cargo de diretora artística”, observa Thomas.
Esse não é um caso isolado. Casas históricas fundadas por mulheres — como Lanvin, Nina Ricci, Schiaparelli e Celine — são atualmente lideradas por homens.
As nomeações de Sarah Burton, da Givenchy, e, mais recentemente, de Chiuri, na Fendi, permanecem exceções.
Não podemos nos esquecer, claro, de Miuccia Prada e Donatella Versace, ambas com protagonismo na indústria da moda.
Miuccia, embora tenha herdado a liderança da marca, transformou a maison com uma visão inovadora, desafiando as normas do setor. Hoje, ainda está à frente da direção criativa da marca, mas ao lado do belga Raf Simons, com quem divide a direção criativa.
Donatella, que sempre esteve ao lado do irmão Gianni Versace na criação das coleções, assumiu a direção criativa da Versace, dando continuidade ao trabalho da maison até recentemente, quando a marca foi adquirida pela Prada. Nesse novo capítulo, foi nomeado Dario Vitale, ex-Miu Miu, como diretor criativo.
Ou seja, ambas têm uma história muito particular no universo da moda, diferente de, por exemplo, Chiuri e Viard, que começaram a carreira na indústria.
Como aponta o sociólogo francês Frédéric Godart, em artigo publicado no Fashion Network, existem diversos fatores que explicam esse predomínio masculino: uma indústria historicamente dominada por homens, ritmos de trabalho intensos — muitas vezes incompatíveis com responsabilidades familiares — e persistentes desigualdades salariais.
Ainda assim, talento feminino não falta. As escolas de moda continuam formando majoritariamente mulheres, e a presença feminina na gestão é significativa: Leena Nair na Chanel, Francesca Bellettini na Gucci e Delphine Arnault na Dior lideram algumas das principais maisons. No grupo Kering, as mulheres ocupam 58% das posições de gestão e metade do comitê executivo.
Diante dessas barreiras, estilistas como Iris van Herpen, Molly Goddard e Simone Rocha escolheram a independência, criando suas próprias maisons e seguindo o caminho de pioneiras como Donna Karan.
“Existe uma geração inteira de mulheres incrivelmente talentosas que simplesmente não têm as oportunidades que merece”, conclui Dana Thomas.
