De todos os desfiles da temporada, o que eu mais aguardava era a estreia de Pierpaolo Piccioli na Balenciaga.
E devo admitir: sou suspeita. Moro perto de Roma e via Piccioli na praia durante o verão, quando ele ainda estava à frente da Valentino, onde realizou um trabalho admirável.
Depois de ter conversado com a filha dele, minha curiosidade só aumentou. Queria ver como um dos diretores criativos mais talentosos da atualidade reinterpretaria o universo de uma das marcas mais icônicas da moda.
Na noite de sábado, em Paris, essa espera finalmente terminou: a estreia de Pierpaolo Piccioli na Balenciaga aconteceu — e não decepcionou.
Como declarou Piccioli ao final do desfile, numa visão positiva que compartilho: “Na minha opinião, depositar fé na humanidade é o ato mais radical que se pode ter hoje”, disse o estilista, recebendo uma longa ovação de pé e exibindo o sorriso sereno de quem acredita que a beleza ainda pode salvar o mundo.
Ele me fez lembrar de minhas aulas de filosofia, de Platão, nos meus tempos do Colégio Santo Agostinho no Rio: contemplar a beleza eleva a alma — é um caminho para o bem e para a verdade.
Ficou nítida a profunda admiração de Piccioli por Cristóbal Balenciaga — o mestre que transformou o corte em escultura e o tecido em silêncio; um artista, antes de tudo, alguém que revolucionou a moda pela forma e pela matéria.
De fato, o painel de inspiração de Piccioli revelava imagens da capela de Notre-Dame du Haut, de Le Corbusier, e do Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci — referências que já anunciavam o diálogo entre proporção, espiritualidade e o corpo humano que veríamos na passarela.
A coleção girava justamente em torno do corpo e de sua relação com a roupa, envolta por uma luz quase sagrada — ora suave, ora cortante.
Assim se deu o debut de Pierpaolo Piccioli na Balenciaga: uma ode silenciosa à beleza contida e à emoção que se move lentamente.
As modelos entravam, uma a uma, no interior de uma igreja de planta cruciforme, dentro de um antigo convento — cenário que, de certo modo, devolvia Cristóbal à sua essência devota.
O material-chave foi o gazar, tecido icônico da casa, que confere, ao mesmo tempo, estrutura e leveza.
Piccioli mergulhou de forma quase devocional no DNA da Balenciaga, pedindo que fossem criadas malhas corporais finas e protetoras, para que as modelos pudessem vestir peças históricas do arquivo sem danificá-las.
“A menos que você veja realmente as roupas de Cristóbal se moverem e girarem sobre um corpo humano vivo, não creio que possa compreendê-las por completo”, insistiu Piccioli.
Vestidos-coluna ondulantes, túnicas e calças em gazar de organza moviam-se como o ar sobre a pele. Entre dobras e transparências, surgia um toque inesperado: jaquetas de couro de silhueta cocoon, e um conjunto de top e saia plissada que trazia a energia de uma musa do rock reinterpretada por um poeta.
Como o fundador, Piccioli brincou com contrastes — gazar e couro, plumas e estrutura — tudo em harmonia. Explicou, antes do desfile, que queria “dar ar às formas”— e conseguiu. Sua Balenciaga não grita, respira.
Foi, na minha opinião, o debut mais delicado e coerente da temporada.
Entre as novidades, Piccioli apresentou a bolsa Bolero, de toque macio e maleável, pensada para ser dobrada e levada sob o braço — um gesto de elegância natural que parece traduzir toda a sua visão.
Piccioli chega à Balenciaga após um intervalo de 18 meses desde sua saída da Valentino, sucedendo Demna, o designer georgiano que levou a marca a um território distópico e sombrio, muitas vezes desconfortável.
Pierpaolo, ao contrário, traz de volta a cor, a humanidade e a crença na beleza. Sua paleta evocava artistas como Fontana, Rothko e Goya — cores que vibram, mas nunca gritam.
Enquanto suas heroínas surgiam mais independentes e conscientes do que as de Cristóbal ou de Demna, o desfile abriu-se com uma versão de “In This Heart”, de Sinéad O’Connor — uma escolha comovente e simbólica.
“Adicionar ar às formas. Criar roupas que sejam ordinárias, mas extraordinárias”, disse Pierpaolo.
Minha admiração por ele não poderia ser maior.
Bravo, Piccioli — como diríamos aqui na Itália.
