A seleção de tecidos e aviamentos em uma coleção de moda não deve ser apenas uma questão estética, mas uma decisão financeira e estrutural intrinsecamente ligada à viabilidade comercial e ao posicionamento de uma marca.
A falsa separação entre estilo e finanças
No desenvolvimento de coleções de moda, vejo com frequência uma desconexão perigosa entre a intenção criativa e a sustentabilidade financeira do produto. A escolha da matéria-prima é, muitas vezes, tratada primariamente sob a ótica tátil, sensorial e estética.
A decisão de incorporar um fio com um título altíssimo, uma construção complexa ou um acabamento especial não afeta apenas o valor do metro comprado do fornecedor, mas impacta diretamente o rendimento do enfesto, a taxa de refugo na mesa de corte, o tempo de costura nas oficinas e a necessidade de processos de beneficiamento posteriores.
Os bastidores da pesquisa de materiais em Milão e Londres
Quando trabalhei na pesquisa de materiais em empresas como a Burberry, em Londres, e a Marni, em Milão, essa dinâmica ficava absolutamente evidente no dia a dia.
No desenvolvimento de um jacquard ou de um tecido de lã estruturada, a avaliação da matéria-prima começava pela análise estética nas feiras de tecidos, mas não parava por aí: passava, logicamente, pelo custo por metro, pela viabilidade de industrialização e pelo comportamento da estrutura do fio ao ser cortada e montada na peça-piloto.
Na Marni, onde o desenvolvimento de estampas tinha um peso estético marcante, a escolha do tecido de seda ou dealgodão precisava responder a uma avaliação rigorosa de rendimento e custo final. Se o tecido não performasse com eficiência na mesa de corte, o custo industrial da peça disparava e inviabilizava a margem da coleção.
O que ensino no Istituto Marangoni e na Accademia del Lusso
Essa experiência prática na indústria é exatamente o que levo para a sala de aula no Istituto Marangoni, em Florença, e na Accademia del Lusso, em Roma. Ensino aos meus alunos e futuros desenvolvedores de produto — e também aplico em minhas consultorias — que a pesquisa de tecidos, mesmo em marcas com diferentes faixas de posicionamento, distintas das de Burberry e Marni, não é um mero exercício de buscar “algo parecido e mais barato”.
Se uma marca tenta alterar a gramatura de um tecido de alfaiataria ou a sua composição sem pensar na modelagem, no caimento desejado e na compatibilidade das entretelas, o resultado costuma ser catastrófico: a peça perde a estrutura original, o caimento se destrói e a percepção de valor desmorona na arara.
Pior ainda, tecidos mais baratos com larguras úteis irregulares ou alto índice de encolhimento frequentemente geram tanto desperdício na mesa de corte que o custo unitário da peça acaba ficando mais elevado do que se tivessem mantido o tecido original.
Critérios estratégicos para decidir os tecidos em coleção
Para garantir que a marca não perca rentabilidade por causa de decisões precipitadas em relação à matéria-prima, recomendo três critérios fundamentais de decisão:
- Cálculo de consumo real: Avalie o custo do tecido com base no consumo real em metros quadrados por modelagem e na largura útil do rolo, nunca apenas pelo preço linear informado pelo representante.
- Hierarquia de matéria-prima no mix: Reserve tecidos de altíssimo valor para peças de imagem (que sustentam o posicionamento da marca e aceitam margens diferenciadas), mantendo as peças de volume sobre bases têxteis consolidadas e de alto rendimento de corte.
- Mapeamento dos custos invisíveis: Considere que tecidos que exigem lavagens especiais ou mão de obra extremamente especializada adicionam custos operacionais que não aparecem na nota fiscal do tecido, mas podem comprometer ou até destruir a margem bruta da marca no momento da entrega.
A verdadeira engenharia de produto no mercado de luxo não existe para limitar a criatividade dos designers; ela existe para proporcionar a sustentabilidade financeira necessária para que a visão criativa se transforme em um negócio sólido, viável e estável.
A leitura de sistema, a análise de viabilidade de produto e a estruturação de coleções fazem parte da metodologia desenvolvida na consultoria estratégica e na mentoria do My Fashion Blomme para marcas e profissionais do setor.
Sobre a Autora
Fernanda Zeemann é consultora e mentora em moda, com mais de 13 anos de experiência internacional na indústria, com atuação em desenvolvimento de produto e pesquisa de materiais para marcas como Versace e Marni, em Milão, e Burberry, em Londres. Atua como professora no Istituto Marangoni, em Florença, com experiência anterior em Paris, e na Accademia del Lusso, em Roma. Leciona disciplinas voltadas a desenvolvimento de produto, têxteis, startup management e brand management, com foco na estruturação de coleções e na construção, gestão e posicionamento de marcas de moda. À frente do My Fashion Blomme, trabalha no desenvolvimento de coleções, na estruturação de marcas e na definição de posicionamento estratégico para projetos no Brasil e no exterior. O My Fashion Blomme opera a moda como sistema, mercado e linguagem.
