A obsessão pelos anos 2000, que ganhou força nos últimos anos, continua a influenciar os guarda-roupas, especialmente quando falamos de peças icônicas e, muitas vezes, controversas.
O vestido bandage — aquele que parece literalmente um band-aid enfaixando o corpo — voltou ao centro das discussões de moda. Recentemente, Kaia Gerber foi vista usando uma versão longa da Hervé Léger, recriando um look que sua mãe, Cindy Crawford, usou em 1993.
Poucos meses depois, Hailey Bieber aderiu à tendência com uma versão moderna e sofisticada em tom de berinjela, criada pela Saint Laurent, seguida por um modelo vintage listrado da coleção primavera/verão1993 da Hervé Léger.
Mas o vestido bandage não é apenas mais uma tendência nostálgica dos anos 2000.
Ele carrega história, símbolos de poder, críticas e um certo desconforto. Sua modelagem, feita para comprimir e destacar a silhueta em forma de ampulheta, já diz muito: mesmo no cabide, o corpo já está implícito.
Segundo a Harper’s Bazaar, o modelo surgiu originalmente na Maison Alaïa, no início dos anos 1980, mas foi Hervé Peugnet quem popularizou a peça ao lançar sua própria marca, Hervé Léger, em 1992.
Ao longo da década de 1990, esse vestido, também conhecido como bodycon, tornou-se um uniforme das supermodelos e, nos anos 2000, firmou-se como símbolo da cultura de balada, desfilado pelos corpos de Kim Kardashian, Rihanna, Paris Hilton, entre outras it girls da época.
Entre vestidos com brilho metálico, blusas tomara que caia, calças cargo justíssimas, microvestidos de paetê, tops de um ombro só e os famigerados jeans de cintura baixíssima, o vestido bandage representava o ápice da sensualidade arquitetada: um visual moldado para ser desejado e, ao mesmo tempo, difícil de alcançar.
O look completo geralmente incluía saltos plataforma, cabelos chapados, óculos escuros usados à noite e, às vezes, um cinto largo marcando a cintura, ícones de uma feminilidade performada até exaustão.
Junto ao bandage dress, outras peças ressurgem com força.
O top baby look estampado, por exemplo, retorna com frases irônicas ou logotipos retrô, resgatando o estilo usado por Britney Spears ou Lindsay Lohan no auge da era dos paparazzi.
Já os conjuntinhos de plush à la Juicy Couture voltam suavizados, em tons pastel e com styling esportivo de luxo. Até mesmo os cintos de fivela dupla, os bonés trucker e as minibolsas estilo baguette ganham nova vida pelas mãos de marcas contemporâneas e influenciadoras nostálgicas.
“Todo mundo tem uma história com esse vestido”, disse Melissa Lefere-Cobb, referindo-se ao vestido bandage, atual vice-presidente sênior da Hervé Léger, à Harper’s Bazaar.
Desde seu relançamento em 2018, após mudanças de propriedade, a marca tem tentado se renovar, agora sob direção criativa de Michelle Ochs (desde 2023), mantendo viva a herança do bandage mas adaptando-a aos novos tempos.
É um desafio.
Ao longo de sua trajetória, o vestido bandage sempre foi associado a corpos jovens, magros e com curvas definidas. A tecnologia do tecido (que comprime e eleva) funciona quase como uma armadura sensual, mas também pode ser impiedosa.
Hoje, a Hervé Léger busca romper com os limites desse passado ao expandir sua grade de tamanhos e incluir mais diversidade nas campanhas.
Ainda assim, o estigma dos anos 2000 persiste.
Em um momento em que o corpo feminino volta a ser objeto de debates, entre a valorização do “corpo forte de Pilates” e o retorno silencioso da magreza extrema, o bandage volta com força.
Ele celebra as curvas, mas ainda dentro de parâmetros visuais bem definidos.
Os vestidos bandage sinalizam status de mais de uma forma: são caros, icônicos e projetados para poucos corpos.
Há também uma leitura feminista em torno desse retorno.
O corpo exposto, a estética hiperfeminina, o desejo de se vestir para si, tudo isso se mistura à performance de poder e ao olhar das redes sociais.
Dessa forma, o bandage é uma peça que carrega um paradoxo: ao mesmo tempo que reafirma padrões, também pode representar o empoderamento de quem escolhe usá-la hoje, de forma consciente, remixando o passado com novas narrativas.
No fim das contas, o retorno do vestido bandage, assim como de tantos outros hits dos anos 2000, é algo a mais na moda: é memória, crítica e, talvez, um espelho do que ainda precisamos ressignificar.
