Trabalhando e vivendo na Itália, acompanho de perto a Milan Fashion Week há várias temporadas.
O que chamou minha atenção nesta edição SS27 foi a forma como diferentes marcas buscaram reinterpretar seus códigos históricos para responder a questões muito atuais de produto, funcionalidade e valor percebido.
Em um momento de transformação para a indústria italiana, Milão pareceu menos interessada em propor rupturas e mais preocupada em encontrar novas formas de conectar identidade, materialidade e desejo contemporâneo.
As coleções apresentadas nesta temporada revelam um movimento particularmente interessante para quem interpreta a moda como sistema que conecta linguagem, comportamento, produto e inovação.
Identificamos, a partir do nosso Observatório de Tendências, uma recorrência: arquivos, códigos históricos, uniformes, artesanato e referências culturais são reinterpretados por meio de novas materialidades e tecnologias para responder a uma nova ideia de desejo: produtos com identidade, mas também com função; sofisticados, porém menos rígidos; carregados de história, mas projetados para uma vida contemporânea.
Nesta temporada, passado e futuro deixam de funcionar como opostos. Nesse contexto, mais do que tendências isoladas, o que emerge é uma série de direções de produto que atravessam diferentes marcas e categorias.
1. A nova cintura: estrutura, feminilidade e precisão
Na Ferragamo, Maximilian Davis retoma o rigor das silhuetas dos anos 1940 para construir uma feminilidade contemporânea. A cintura volta a ocupar uma posição central, marcada por proporções precisas, cintos sobrepostos, coletes e peças utilitárias.
A referência histórica, entretanto, não aparece como reprodução. Ela é transformada por meio de materiais contrastantes, como couro, PVC, borracha translúcida e superfícies de aparência técnica, criando uma tensão entre o artesanal e o industrial.
Do ponto de vista de produto, o movimento é significativo: a estrutura volta a assumir um papel de destaque na construção do desejo e do valor percebido do produto.
Em contraste com temporadas recentes marcadas por volumes amplos e silhuetas mais relaxadas, a SS27 aponta para uma valorização maior da construção, da cintura e da definição corporal.
No nosso Observatório, esse movimento pode ser interpretado como uma evolução da busca por soft tailoring para uma possível nova fase de “precise femininity”: peças estruturadas, mas não necessariamente formais; ajustadas, mas confortáveis; femininas sem recorrer a códigos excessivamente ornamentais.
2. Utility sofisticado: quando a função vira linguagem estética
Outro sinal recorrente aparece na transformação do universo utilitário.
Na Ferragamo, bolsos de inspiração militar são incorporados a saias lápis e outerwear, enquanto coletes utilitários entram sob peças de alfaiataria. Em outras propostas da temporada, bolsos, pespontos, sobreposições e elementos funcionais deixam de ser apenas recursos técnicos e passam a desempenhar um papel mais visível na construção da identidade do produto.
Na MSGM, por exemplo, as bolsas e bolsos ganham pespontos de inspiração militar, enquanto o nylon transparente introduz uma camada tecnológica ao styling.
O que muda é a percepção da função: o detalhe funcional deixa de ocupar um papel secundário e passa a assumir maior protagonismo na construção visual das peças.
Para o desenvolvimento de produto, isso abre espaço para uma nova geração de peças híbridas: alfaiataria com elementos utilitários, outerwear com soluções de bolso mais sofisticadas, camisas funcionais e acessórios que combinam organização e expressão visual.
3. Transparência como matéria — não apenas como efeito
A transparência aparece em diferentes universos da temporada, mas com uma abordagem mais sofisticada.
Na Sportmax, a organza, o voile e os tecidos leves criam sobreposições quase arquitetônicas. Na MSGM, o nylon transparente funciona como camada de styling. Na Dolce&Gabbana, véus e transparências contrastam com aplicações de pérolas e construções rígidas.
O ponto relevante para produto é que a transparência passa a ser tratada como uma materialidade de projeto, e não simplesmente como exposição do corpo.
Ela pode funcionar como camada, proteção, acabamento ou elemento de contraste.
Esse movimento amplia as possibilidades de desenvolvimento de produto em tecidos técnicos transparentes, organzas, nylons leves, superfícies translúcidas e construções em camadas — especialmente quando combinadas a bases mais estruturadas.
4. Arquivo como matéria-prima para o futuro
A temporada também reforça uma transformação importante na relação da moda com o arquivo.
Na Dolce&Gabbana, a memória da Sicília, os interiores aristocráticos, os antigos enxovais, os rendados e os tecidos decorativos são deslocados para o vestuário. O gesto é quase arqueológico: buscar no guarda-roupa familiar elementos que possam ser reinterpretados pelas novas gerações.
O resultado não é nostalgia, mas um exercício de recontextualização.
Brocardos, damascos, rendas, pérolas e estampas históricas encontram denim, minissaias, peças oversized e construções contemporâneas.
Essa lógica é particularmente relevante para o produto: o arquivo deixa de funcionar apenas como referência visual e passa a atuar como fonte de soluções para o desenvolvimento de produto.
Construções, acabamentos, técnicas, proporções, aviamentos e superfícies históricas podem ser reinterpretados para criar produtos que preservam profundidade cultural ao mesmo tempo em que constroem uma percepção de novidade.
5. O artesanal como diferencial competitivo
Em um cenário cada vez mais marcado pela velocidade e pela tecnologia, o artesanal surge novamente como um importante elemento de diferenciação e valor.
A Tod’s coloca a chamada “Inteligência Artesanal” no centro da coleção. O couro é trabalhado por meio de técnicas que valorizam toque, leveza e qualidade. O Pashmy, por exemplo, enfatiza uma mão extremamente macia e sedosa.
O mesmo movimento aparece na Dolce&Gabbana, por meio dos trabalhos de crochê, rendas tridimensionais, aplicações e bordados.
A mensagem para produto é clara: a diferenciação não está apenas no design, mas também na experiência tátil, nos acabamentos e na construção do produto.
Para o consumidor, mais do que a forma em si, o valor percebido passa a estar associado a atributos como toque, peso, acabamento, textura, história e qualidade construtiva.
Isso coloca materiais, acabamentos e técnicas de fabricação em uma posição cada vez mais estratégica no processo de desenvolvimento de produto.
6. O novo luxo é tátil
A temporada apresenta uma ampla exploração de superfícies.
Couros amaciados pelo sol, cetins de alto brilho, penas, paillettes, organzas, PVC translúcido, nylon técnico, brocados, crochês e superfícies metalizadas convivem dentro de uma mesma temporada.
Essa diversidade revela uma tendência maior: o luxo está cada vez mais relacionado à experiência sensorial do produto, que assume um papel cada vez mais relevante na construção de valor percebido.
Assim, a superfície passa a atuar como um dos elementos de comunicação desse valor, antes mesmo da construção completa da peça.
Para o desenvolvimento, isso significa uma oportunidade importante de pesquisa em acabamentos: lavagens, efeitos de desgaste, brilho, transparência, toque seco, toque sedoso, superfícies emborrachadas e combinações entre materiais naturais e tecnológicos.
7. O retorno do romance — agora mais solar e menos ingênuo
Na Blumarine, David Koma constrói uma feminilidade que combina referências do boudoir, sleepwear, lingerie e cultura californiana.
Chiffon, tule, organza, plumas, cetim e renda são trabalhados em silhuetas fluidas e sobrepostas. As flores aparecem acompanhadas de penas, cristais e efeitos aquáticos.
O romantismo, porém, passa por uma atualização importante.
Ele deixa de ser excessivamente delicado e ganha uma dimensão mais física, solar e sensual.
Essa transformação aponta para uma reinterpretação contemporânea do feminino e dos códigos românticos, marcada por um equilíbrio entre delicadeza e presença, sensualidade e descontração.
8. Calor extremo e o novo desejo por leveza
A Sportmax parte de um fenômeno cada vez mais presente na experiência cotidiana: as ondas de calor.
A resposta da coleção é uma alfaiataria extremamente leve, construída com voile, viscose, lã e organza. Transparências, sobreposições e volumes fluidos criam roupas capazes de preservar a ideia de tailoring sem o peso tradicional da alfaiataria.
Aqui encontramos uma das direções mais relevantes observadas para o desenvolvimento de produto: climate-adaptive fashion.
O clima passa a influenciar de forma cada vez mais evidente a construção, o peso, a respirabilidade, a transparência e a escolha de materiais.
Não se trata apenas de criar roupas de verão, mas de desenvolver produtos adequados a condições climáticas cada vez mais imprevisíveis.
9. Cor como informação
A cor também assume um papel estratégico.
A MSGM recupera o universo pop de Mario Schifano por meio de color blocking, imagens, listras e superfícies vibrantes. A Tod’s parte de tons naturais e acrescenta queimados, amarelo açafrão, vermelho e azul.
Na Dolce&Gabbana, os corais mediterrâneos, amarelos solares e ocres reforçam a narrativa siciliana.
Mais do que uma simples paleta, a cor funciona como uma ferramenta narrativa e de construção de identidade de coleção.
Para o produto, isso significa trabalhar cor de maneira mais conectada à história da coleção: tons naturais como base, acentos cromáticos para reforçar contraste, direcionamento estético e percepção de valor, além de combinações capazes de atualizar categorias clássicas.
10. O produto híbrido ganha força
Talvez um dos sinais mais importantes da temporada seja a dissolução das fronteiras entre categorias.
O trench vira vestido. O colete utilitário entra na alfaiataria. O cardigan assume proporções de outerwear. A lingerie aparece sob peças estruturadas. A sneaker encontra a construção da sapatilha. O mocassim se transforma em linguagem aplicada a diferentes produtos.
Esse comportamento indica uma tendência de category fluidity.
O consumidor busca cada vez mais produtos capazes de circular entre diferentes contextos de uso, em vez de permanecer restrito a categorias rígidas e compartimentadas.
Para o desenvolvimento, isso significa pensar menos em “peças isoladas” e mais em sistemas de produto: peças que possam ser usadas de diferentes maneiras, combinadas entre si ou reinterpretadas por meio do styling.
O que a SS27 sinaliza para o desenvolvimento de produto
A leitura conjunta das coleções mostra que a próxima temporada não é definida por uma única estética, mas construída a partir de tensões:
- Arquivo × Futuro
- Artesanal × Tecnológico
- Estrutura × Fluidez
- Função × Desejo
- Romântico × Utilitário
- Natural × Sintético
- Proteção × Transparência
- Precisão × Espontaneidade
É justamente nessas interseções que encontramos as oportunidades mais interessantes.
O nosso Observatório de Tendências identifica, portanto, cinco grandes direções para transformar esses sinais em produto:
01. Precisão feminina
Cinturas marcadas, alfaiataria leve, proporções definidas e construção corporal.
02. Utility elevado
Bolsos, pespontos, módulos funcionais e detalhes militares reinterpretados com acabamento premium.
03. Matéria sensorial
Couros macios, transparências, superfícies translúcidas, brilhos, efeitos emborrachados e acabamentos táteis.
04. Arquivo recontextualizado
Técnicas tradicionais, rendas, estampas, aviamentos e construções históricas reinterpretados para uma linguagem contemporânea.
05. Produto adaptável
Leveza, respirabilidade, sobreposição, modularidade e peças capazes de transitar entre diferentes situações de uso.
No fim, a SS27 parece apontar menos para uma “tendência” única e mais para uma mudança na maneira como o produto de moda é concebido.
A novidade não está necessariamente em criar algo nunca visto, mas em combinar referências conhecidas de uma maneira capaz de responder a novos contextos de comportamento, uso e consumo.
É aí que a pesquisa de tendências ganha valor estratégico: transformar sinais culturais, mudanças climáticas, referências históricas, inovação material e comportamento em decisões concretas de produto — da silhueta ao tecido, do acabamento à funcionalidade, da cor ao detalhe.
E talvez seja justamente essa a principal mensagem de Milão para a SS27: o futuro da moda não está apenas naquilo que parece novo, mas na capacidade de atribuir novas funções, novas proporções e novos significados àquilo que já conhecemos.
