Em um mundo marcado por polarizações, hiperconexão e um bombardeio constante de informações, imagens e estímulos, cresce o desejo por silêncio, profundidade e conexão genuína com a natureza.
Essa busca, como vimos em nosso observatório de tendências, se reflete em movimentos sociais, hábitos de consumo e até escolhas estéticas — e também encontra eco na passarela da alta-costura.
Na temporada Outono/Inverno 2025-26, coleções de duas marcas emblemáticas traduziram esse impulso por reencontro com o essencial: Chanel e Iris van Herpen, cada uma à sua maneira, evocaram a natureza como fonte de refúgio, inspiração e resistência criativa.
Chanel: um refúgio nas Highlands
A Chanel apresentou sua coleção de Alta-Costura no Salon d’Honneur do Grand Palais, transformando-o no lendário ateliê da rue Cambon para celebrar os 110 anos da maison.
O cenário intimista recriou o ambiente do ateliê — um endereço histórico que se tornou símbolo da maison, onde Gabrielle Chanel consolidou seu legado e estabeleceu os pilares do savoir-faire que continuam a guiar a alta-costura até os dias atuais.
A coleção, inspirada nas paisagens do campo inglês e das Highlands escocesas — destinos amados por Coco Chanel — propôs um luxo que dialoga com o mundo natural: elegante, sim, mas com espírito rústico, funcional e quase ritualístico.
Entre os destaques: tweeds bouclé em silhuetas mannish bordadas em dourado, botas cuissardes flats com pontas arredondadas, tecidos como mohair e lã em tons terrosos, e detalhes simbólicos como espigas de trigo bordadas — sinalizando abundância e conexão com a terra.
A alfaiataria de apelo andrógino e os coletes de lã evocam o vestuário camponês reinterpretado sob o olhar refinado da maison.
A proposta equilibra tradição e força contemporânea, trazendo uma leitura mais livre e matizada da feminilidade, ao mesmo tempo em que reafirma a beleza do trabalho manual — uma forma de resistência silenciosa em tempos de fast fashion e aceleração digital.
Iris van Herpen: simbiose entre corpo e planeta
Enquanto Chanel volta-se para o campo, Iris van Herpen mergulha nos oceanos.
Em Sympoiesis — nome inspirado no conceito de simbiose ecológica — a criadora holandesa constrói uma passarela que se transforma em aquário, em manifesto, em universo bioluminescente.
No escuro do teatro Elysée Montmartre, criaturas marinhas ganham vida com movimentos ondulantes, tecidos fluidos e estruturas futuristas. As peças são construídas com biotecnologia de ponta, como um vestido que abriga 125 milhões de algas bioluminescentes encapsuladas em membranas — uma colaboração com o biodesigner Chris Bellamy.
Inspirada pelas ideias de James Lovelock e sua teoria de Gaia, Iris propõe um novo ecossistema em que corpo, moda e natureza não se distinguem, mas se entrelaçam. As referências a medusas, moreias, peixes e estrelas-do-mar não são apenas estéticas — elas convidam à empatia por um planeta em desequilíbrio e à urgência de novos modos de criação.
A natureza como manifesto
Tanto Chanel quanto Iris van Herpen, ainda que com linguagens visuais distintas, apresentam coleções que apontam para uma moda mais conectada à simbologia da natureza, ao ritmo do artesanal e à urgência da preservação do planeta.
A alta-costura, que sempre foi símbolo de exclusividade e excelência técnica, agora também se posiciona como espaço de reflexão profunda: sobre como o ato de se vestir pode ser um gesto poético, político e regenerativo.
Segundo o relatório State of Fashion 2024 (McKinsey & Business of Fashion), há uma crescente valorização de narrativas ligadas à sustentabilidade, ao emocional e ao sensorial, com consumidores buscando marcas que ofereçam mais do que estética: um sentido de preservação, pertencimento e propósito. Em tempos de sobrecarga digital e crises múltiplas, a moda que olha para a terra e para os oceanos talvez seja o que resta de mais promissor?
