Na Primavera/Verão 2027, Iris van Herpen leva o plasma para o território da moda, explorando os limites entre matéria, tecnologia e corpo.
A estilista holandesa redefiniu o conceito de alta-costura com vestidos de plasma, relâmpagos reais e estética futurista que atraiu a atenção do público, de profissionais e analistas do mercado internacional antes mesmo de sua apresentação na Semana de Moda de Paris
Mesmo após o encerramento das semanas de moda, o trabalho em nossas consultorias exige um olhar contínuo sobre estilistas e coleções que redefinem o setor. Nesse contexto, a obra de Iris van Herpen é um exemplo claro de como a pesquisa autoral consolida a autoridade de uma casa no mercado internacional.
Se a Haute Couture busca constantemente o sublime, Iris encontrou a resposta nas profundezas do cosmos. Em Paris, a designer novamente que a natureza é o o elemento central do seu trabalho ao apresentar os vestidos de plasma na coleção “Sonic Starquakes”.
Inspirada nas estruturas dos starquakes — as poderosas explosões de supernovas que reverberam energia pelo universo —, a apresentação traduziu conceitos da astrofísica em uma rigorosa pesquisa de materiais..
As estrelas vibram a anos-luz de distância e criam uma energia caótica que, nas mãos de Van Herpen, foi convertida em diretrizes práticas de design, consolidando a sua estética vanguardista e o rigor técnico na alta-costura.
O vestido de Iris van Herpen que vive (literalmente) de eletricidade
Um dos destaques no desenvolvimento de produto da coleção foi o vestido ‘Fractal Universe’. Em vez de recorrer a simulações digitais em CGI, a peça foi construída com condução elétrica real e ionização de plasma. Ao integrar circuitos e iluminação diretamente no tecido, Iris van Herpen mostra como a pesquisa de materiais eleva o nível da engenharia de produto de luxo na indústria da moda.
Para conseguir esse efeito, Van Herpen carregou a peça com eletricidade, preservando-a criogenicamente. O acúmulo de carga nos sistemas integrados gerou instabilidades reais nos bastidores, onde a estrutura têxtil iniciou descargas elétricas espontâneas ainda no backstage.
Esse imprevisto evidencia que o desenvolvimento de produto pautado em tecnologia física envolve riscos e exige uma pesquisa de materiais contínua para viabilizar peças de alta complexidade
O resultado dessa reação é o plasma, o componente primário das estrelas, do vento solar e das nebulosas.
A recepção positiva do front row — que reuniu figuras como a princesa Maria Chiara di Borbone e a atriz Daphne Guinness — evidencia como a pesquisa de materiais consolida a linguagem de coleção e eleva o valor perceptível do produto de luxo.
A inspiração por trás dessa ideia genial vem de um experimento histórico da pesquisadora galesa Margaret Watts Hughes (1842-1907), que desenvolveu o “Eidofono”, equipamento capaz de materializar a voz em partículas físicas e pós coloridos em geometria visível, servindo de base para a tradução do som em matéria tridimensional
Helix Nebula e a estética do toque de Iris van Herpen
Além do Fractal Universe, a passarela parisiense foi impactada pela Helix Nebula.
O top da peça é composto por duas estruturas esculturais em vidro soprado à mão, preenchidas com plasma que reage ao toque. Na passarela escura, o corpete brilhava com um glow místico em vermelho intenso.
Essa técnica do vidro soprado milimétrico não é novidade. A estilista já tinha hipnotizado o mundo no Met Gala com o Airo dress, usado pela atleta Eileen Gu, composto por 15.000 bolle iridescenti iluminadas por luz UV. É a ciência encontrando a alta-costura de uma maneira que pouquíssimos designers ousem fazer.
De Paris direto para o seu feed
A repercussão da do desfile foi imediata. A coleção foi destaque as plataformas digitais e na imprensa especializada internacional.
Ao articular tecnologia de ponta e biomimética, Iris Van Herpen conseguiu, mais uma vez, dar à moda aquele toque intelectual e vanguardista que mistura tecnologia de ponta e obsessão pela natureza.
Como a própria Iris pontuou nas notas do desfile, a intenção dela nunca foi nos dar uma aula de astrofísica ou explicar o universo, mas justamente o oposto: nos lembrar do quanto ainda não sabemos.
Para ela, existem dimensões infinitas — tanto ao nosso redor quanto dentro de nós — que ainda não descobrimos. Em vez de tentar racionalizar essas forças cósmicas, o trabalho dela serve para aguçar a nossa curiosidade e nos reconectar com os mistérios fascinantes desse multiverso em que vivemos.
Assim, longe de pretender uma explicação científica do universo, o trabalho de Iris van Herpen opera no campo do questionamento, utilizando a alta-costura para tensionar os limites da matéria. No multiverso de Iris van Herpen, o desconhecido nunca pareceu tão fascinate. E a repercussão global do desfile evidencia a força da engenharia de produto desenvolvida pela casa.
Sobre a autora
Fernanda Zeemann é consultora e mentora em moda, com mais de 13 anos de experiência internacional na indústria, com atuação em desenvolvimento de produto e pesquisa de materiais para marcas como Versace e Marni, em Milão, e Burberry, em Londres. Atua como professora no Istituto Marangoni, em Florença, com experiência anterior em Paris, e na Accademia del Lusso, em Roma. Leciona disciplinas voltadas a desenvolvimento de produto, têxteis, startup management e brand management, com foco na estruturação de coleções e na construção, gestão e posicionamento de marcas de moda. À frente do My Fashion Blomme, trabalha no desenvolvimento de coleções, na estruturação de marcas e na definição de posicionamento estratégico para projetos no Brasil e no exterior. O My Fashion Blomme opera a moda como sistema, mercado e linguagem.
