Gabriela Hearst, Tom Ford e Dior: três visões, um único palco, Paris.
Na Semana de Moda Primavera/Verão 2026, em Paris, dois destaques se impuseram: o desfile magistral daTom Ford, sob a direção de Haider Ackermann, e a coleção de Gabriela Hearst, com forte apelo comercial.
O calendário também foi marcado pelo aguardado debut de Jonathan Anderson na Dior, que apresentou uma proposta experimental.
Tom Ford: como ser chic segundo Haider Ackermann
Esta foi a segunda apresentação de Ackermann para a marca — ainda assim, cercada pela atmosfera de uma estreia, como as que ocorreram em mais de quinze maisons nesta temporada.
“Meu trabalho fala de força, fragilidade e da coragem de se afirmar”, conta Ackermann, colombiano de nascimento e criado na Holanda.
Tom Ford não estava presente ao desfile, que ocorreu no Pavillon Vendôme, diante de pouco mais de uma centena de convidados. As modelos desfilaram looks marcados pelo glamour “exagerado” e pela sofisticação absoluta — como era de se esperar da marca —, em vestidos de chiffon e jersey, com recortes estratégicos e uma pitada de provocação.
Gabriela Hearst: os arquétipos e o tarot
Gabriela Hearst trouxe a habitual positividade que caracteriza seu trabalho. A estilista uruguaia apresentou sua coleção, inspirada nos arcanos maiores do tarot, em um belo desfile com vista para um jardim medieval, desenvolvendo uma narrativa profunda e pessoal que valorizou o artesanato e adotou uma abordagem cuidadosa de reaproveitamento de materiais.
Os convidados encontraram catálogos ilustrados com aquarelas das cartas do tarot— a Papisa, a Imperatriz, a Sacerdotisa, os Amantes, o Sol, o Mago, entre outras — que se traduziram em silhuetas alongadas de vestidos, ponchos e mantos até o chão.
Em uma atmosfera cheia de luz, Laura Dern abriu o desfile usando um vestido de lamê prateado adornado com 2.500 flores de couro feitas à mão, representando a Imperatriz e simbolizando a fertilidade e abundância.
Entre os destaques da coleção, estavam vestidos de linho dourado representando o Sol e um casaco de camurça com franjas, pingentes de ouro e caveiras, evocando a Morte como símbolo de renovação.
Outros destaques da coleção foram as jaquetas e os vestidos de couro translúcido, ternos de alfaiataria masculina combinados com tops, jaquetas de motociclista em camurça e blazers de seda perolada de corte sofisticado.
Cada peça transmitia autoridade e naturalidade, com um toque quase régio.
Hearst apareceu ao final em um conjunto de couro preto, reforçando sua ligação pessoal com a coleção e arrancando aplausos e sorrisos do público.
Dior por Jonathan Anderson: o New Look segundo Anderson
A estreia de Jonathan Anderson na Dior feminina foi um dos momentos mais esperados da Semana de Moda.
O estilista apresentou múltiplos New Looks, reinterpretando mais de uma dúzia de versões da icônica Bar Jacket.
Vale lembrar que essa peça, criada por Christian Dior em 1947, tornou-se o emblema do New Look, responsável por redefinir a moda do pós-guerra, quando as mulheres ainda se vestiam de forma austera e prática. A Dior devolveu ao vestuário o senso de luxo, feminilidade e exuberância, transformando para sempre a história da moda.
O desfile começou com um vídeo-manifesto dirigido por Adam Curtis, que misturava imagens de Monsieur Dior, John Galliano e estrelas de cinema. O filme foi recebido com aplausos.
Na passarela, Anderson ousou: sobreposições escultóricas, jaquetas que se transformavam em casacos volumosos, colarinhos de renda que caíam em cascata até o chão e a Cigale, a nova it-bag em formato triangular.
Bernard Arnault, Brigitte Macron, Charlize Theron e Johnny Depp estavam na primeira fila, testemunhando um desfile que dividiu opiniões.
De fato, Jonathan Anderson buscou equilibrar tradição e inovação em sua estreia na Dior, e o resultado provocou olhares e análises contrastantes.
Alguns críticos celebraram a homenagem discreta ao legado da Maison, as sobreposições criativas e o potencial comercial das peças; outros questionaram a ausência de uma silhueta verdadeiramente marcante, a definição ambígua da “nova mulher Dior” e a falta de coesão entre os looks.
Entre elogios e críticas, fica evidente o enorme e delicado desafio de renovar uma casa histórica sem diluir o DNA que a tornou icônica.
Assim, entre o glamour teatral de Haider Ackermann na Tom Ford, a força luminosa de Gabriela Hearst e a ousadia experimental de Jonathan Anderson na Dior, Paris mostrou a moda em sua essência: audaciosa, contraditória e irresistível.
