A Semana de Alta-Costura de Paris abriu suas cortinas com um espetáculo onírico e provocador: o desfile de Outono/Inverno 2025-26 da Schiaparelli.
Na estreia da Haute Couture em Paris, a Schiaparelli impressionou com uma coleção que mistura o surrealismo do período entre guerras com elementos de um futuro imaginado.
O diretor criativo Daniel Roseberry mergulhou nos arquivos da Maison e em fotografias em preto e branco da época, criando uma estética que parecia capturar “o crepúsculo do glamour” anterior à ocupação alemã — ressaltando também a decisão de Elsa Schiaparelli de deixar Paris, sua cidade adotiva, em 1940, logo após o início da Segunda Guerra Mundial.
O contexto: chuva, estrelas e expectativa
Sob a chuva que caía sobre Paris, o Petit Palais serviu de palco para o desfile, um verdadeiro espetáculo que contrastava o clima cinzento com o calor intenso dos flashes no tapete vermelho.
Na primeira fila, presenças de peso como Dua Lipa, Anitta e Cardi B — que roubou a cena ao surgir com um corvo vivo no braço — deram o tom pop-viral ao evento.
Daniel Roseberry, ciente da poderosa herança deixada por Elsa Schiaparelli — ícone da alta-costura surrealista desde 1927 — mergulhou nos arquivos da Maison, reimaginando códigos clássicos com frescor contemporâneo.
Peças emblemáticas, como o célebre lobster dress, ganharam novas formas: jaquetas de ombros arquitetônicos, vestidos pretos estruturados e trajes de matador reinterpretados com uma sensualidade provocante.
A cartela de cores da Schiaparelli, essencialmente monocromática, foi quebrada por um único ponto de tensão dramática — o vermelho vivo —, com destaque para um vestido em cetim escarlate, adornado por um colar em forma de coração “pulsante” pendurado na nuca, que injetou uma teatralidade crua e visceral à narrativa da coleção.
Técnica e materiais: tules, lã bordada e arquitetura drapeada
Essa coleção da Schiaparelli foi um exercício de contrastes ousados: tules translúcidos se fundiam à rigidez da lã bordada em casacos de noite esculturais e tailleurs de espírito lúdico. Os detalhes em trompe-l’œil — como bordados que reproduziam bulbos oculares ou silhuetas fluidas — revelaram um nível de refinamento artesanal impressionante.
Marcando uma ruptura com os corsets estruturados da temporada anterior, Daniel Roseberry optou por silhuetas mais livres e orgânicas, que flutuavam ao redor do corpo sem restringi-lo — mesmo em peças audaciosas, como vestidos feitos de cetim vermelho intenso. O resultado foi uma estética híbrida: simultaneamente escultural e etérea.
Roseberry descreveu o desfile como um “canto do cisne”: uma despedida de ciclo — e, possivelmente, o anúncio de uma reestruturação profunda da maison.
Gen Z: performance, ativismo e estética compartilhável
Para a geração Gen Z, que valoriza autenticidade, questionamento, espetáculo e propósito cultural, a coleção da Schiaparelli ofereceu exatamente esses elementos, traduzidos em uma experiência de moda que transcende o simples ato de vestir.
O desfile — com Cardi B desfilando acompanhada pelo corvo, Dua Lipa marcando presença como uma verdadeira noiva da alta-costura, flashes frenéticos e uma chuva intensa que só intensificou o clima dramático do evento — criou um momento poderoso, amplamente compartilhado nas redes sociais, que capturou a atenção do público jovem e conectado.
Além disso, a paleta quase toda em preto, branco e prata, quebrada apenas por um vermelho vibrante, reforçou a teatralidade do desfile e potencializou o impacto visual — favorecendo a viralização das imagens e vídeos entre um público digital que faz do visual sua principal linguagem.
E ainda, mais do que um espetáculo, a coleção trouxe uma narrativa poética profundamente enraizada na história, ao recontar a trajetória de Elsa Schiaparelli, que deixou Paris em 1940, poucos meses após o início da Segunda Guerra.
Assim, a Maison conecta arte, memória e ativismo — questões sensíveis e importantes para a Gen Z, que busca significado, engajamento e consciência social por trás da aura da moda. Por fim, a renovação criativa da coleção, pautada na valorização dos arquivos históricos, no domínio de técnicas artesanais e na releitura de acervos, é um contraponto firme ao fast fashion, afirmando a moda como uma cultura viva e dinâmica, capaz de preservar tradição e, ao mesmo tempo, inovar com consciência.
