Essa é uma das perguntas que mais recebo dos meus alunos, seja em Florença, no Istituto Marangoni, seja em Roma, na Accademia del Lusso. Sem contar os nossos alunos do Blomme que acompanho em mentorias e consultorias, no Brasil e no exterior.
Onde procurar trabalho na moda? Quais plataformas realmente funcionam? E por onde começar quando o objetivo é trabalhar em moda no Brasil ou no exterior?
A primeira coisa que costumo esclarecer é simples: plataforma não resolve carreira.
É apenas uma ferramenta.
O que faz uma candidatura avançar é a preparação, a consistência da trajetória, a clareza na forma como você apresenta seu trabalho na moda e a precisão na escolha do mercado e da função.
Se você usa os canais errados, muitas vezes não é rejeitado. Você simplesmente não chega a ser visto.
Quando fui contatada pela Burberry em Londres, a candidatura partiu por uma plataforma especializada em moda, o Business of Fashion, que sempre recomendo, e não de um site generalista.
Esse detalhe importa.
Os mercados, tanto brasileiro quanto internacional, têm suas próprias ferramentas e seus próprios filtros, que começam antes mesmo do processo seletivo.
Organizei este guia por região porque o mercado não funciona de forma homogênea.
Europa, Estados Unidos e os portais dos grandes grupos seguem dinâmicas diferentes.
Entender isso é o primeiro passo para uma busca mais estratégica.
Trabalho na Moda: na Europa
A Europa concentra as maiores oportunidades em moda de luxo, design e comunicação de alto nível. Paris, Milão e Londres continuam sendo os principais centros, mas as vagas estão distribuídas por todo o continente, em grupos como LVMH e Kering, em marcas independentes e em empresas de varejo com operação internacional.
Foi por meio de plataformas especializadas como BoF Careers e FashionUnited que encontrei vagas em desenvolvimento de produto e acompanhei parte das oportunidades que me levaram aos processos seletivos das empresas em que trabalhei.
BoF Careers
É a plataforma que mais recomendo para quem quer buscar trabalho no mundo todo. O Business of Fashion é uma das principais publicações do setor globalmente, e sua área de carreiras reflete isso. Reúne vagas em marcas como Burberry, Moncler e grupos como LVMH e Kering, com forte presença na Europa. Quem acompanha o BoF como leitor já começa a desenvolver o repertório exigido por essas posições.
Fashion Jobs
Fashion Jobs é uma das maiores plataformas focadas estritamente em vagas de emprego, do operacional ao executivo, para os setores de moda, luxo e beleza. Sua interface por país facilita uma busca regional muito direcionada.
Fashion United
Plataforma global Fashion United, focada em notícias de negócios e inteligência de mercado, que também conta com um forte portal de carreiras e ferramentas de conexão comercial entre marcas.
Cerulean
Uma plataforma que conheci recentemente, a Cerulean, é focada exclusivamente no setor de luxo. Reúne oportunidades em marcas como Chanel, Louis Vuitton, Hermès, Dior, Gucci e Rolex, em mais de 50 países. É uma das ferramentas mais objetivas para quem quer atuar especificamente no mercado de luxo.
Fashion Workie
Voltada principalmente para o mercado britânico, a Fashion Workie, com foco em vagas de entrada, estágios e work placements. Útil para quem está começando a trajetória internacional e busca uma primeira experiência no Reino Unido.
Portais oficiais dos grandes grupos
Para quem tem como objetivo trabalhar em um grande grupo, a candidatura direta pelos portais oficiais costuma ser o caminho mais eficiente. Muitas vagas aparecem primeiro nesses canais, e algumas nunca são divulgadas em plataformas externas.
LVMH
Portal do maior grupo de luxo do mundo, Inside LVMH, com vagas em diferentes funções e países.
Kering
Grupo Kering responsável por marcas como Gucci, Saint Laurent, Bottega Veneta, Balenciaga e Alexander McQueen.
Inditex Careers
Grupo Inditex da Zara e da Massimo Dutti, com forte presença em design, compras, logística e varejo internacional.
No Estados Unidos
O mercado americano tem uma lógica própria. Nova York continua sendo o principal polo criativo e comercial, enquanto Los Angeles vem se consolidando como referência em moda contemporânea.
As principais plataformas são:
StyleCareers
Uma das maiores plataformas de vagas de moda nos Estados Unidos, a Style Careers, com foco em design, desenvolvimento de produto e varejo.
BoF Careers
Assim como na Europa, tem presença ativa no mercado americano, com oportunidades em diferentes marcas e grupos.
No mercado americano, é uma ferramenta central. Muitas vagas aparecem primeiro ali. Manter o perfil em inglês, atualizado e conectado às empresas relevantes faz diferença real.
Antes de aplicar para um trabalho na moda: três pontos que fazem diferença
Portfólio
Para funções criativas, o portfólio é o documento mais importante. Mais do que o currículo. Ele precisa estar online, ser fácil de navegar e mostrar processo, não apenas resultado. Plataformas como Cargo Collective e Adobe Portfolio funcionam bem. Um Instagram profissional bem estruturado também pode operar como portfólio ativo.
Idiomas
O inglês é o mínimo absoluto. Na Europa, o segundo idioma muda o acesso. Italiano abre portas em Milão e nas empresas italianas. Francês é central para Paris e para marcas francesas, mesmo fora da França. Ter inglês em nível profissional e ao menos um segundo idioma europeu posiciona o profissional de forma mais competitiva já nas primeiras etapas.
Na minha experiência, isso fez toda a diferença. Quando fui estudar em Milão, eu já tinha formação em italiano pelo Istituto Italiano di Cultura no Rio, mesmo que a fluência tenha vindo só no meu dia a dia em Milão.
Para trabalhar fora, o que importa é o domínio do idioma, avaliado na prática já nas entrevistas. Certificações formais raramente são exigidas no mercado.
Esse cenário muda quando o objetivo é estudar no exterior. Em processos acadêmicos mais estruturados, elas podem ser obrigatórias, embora nem sempre sejam determinantes em cursos de especialização de curta duração.
Documentação e autorização para trabalhar
Este é um dos pontos que mais travam candidaturas. A maioria das vagas na Europa exige autorização prévia para trabalhar, seja por cidadania, visto ativo ou acordo bilateral.
Profissionais com dupla cidadania europeia têm acesso ao mercado de toda a União Europeia. Quem não tem precisa verificar, antes de aplicar, se a empresa patrocina visto (o que, infelizmente, não acontece na maior parte das vagas de início de carreira). Quando essa informação não está clara, vale perguntar antes de investir tempo no processo.
No Reino Unido, o Skilled Worker Visa é obrigatório na maioria dos casos. Nos Estados Unidos, os caminhos mais comuns são o H-1B e o O-1. Verificar essas condições não é burocracia. É parte da estratégia.
Uma observação final
Plataformas são ferramentas. O que determina se uma candidatura avança é a consistência da trajetória, clareza na apresentação e precisão nas escolhas.
O networking no LinkedIn, o portfólio atualizado e a candidatura direta nos sites das marcas continuam sendo os caminhos mais eficientes, especialmente para quem já tem experiência internacional ou formação sólida em moda.
O mercado europeu de luxo costuma ser movido por indicação e por trajetória visível. Isso não torna o mercado inacessível. Significa que o processo começa antes da candidatura.
No meu caso, participei de processos seletivos em uma infinidade de empresas, como Gucci, Pucci, Salvatore Ferragamo, Marni, Acne Studios, Off White, Stine Goya, Burberry e muitas outras sem indicação.
É claro que não fui chamada para trabalhar em todas elas, mas isso é normal.
Já o Master em Desenvolvimento de Produto no Istituto Marangoni foi determinante para a minha entrada na Versace, no início da carreira, e me abriu a possibilidade de voltar para a sala de aula, anos mais tarde, como professora.
No início da minha carreira, trabalhar na Versace funcionou como passaporte para as demais oportunidades — uma carta de recomendação silenciosa, mesmo dentro de processos formais de seleção.
Na Burberry, como mencionei no início, candidatei-me online enquanto ainda trabalhava na Itália e fui chamada para as etapas em Londres. Depois disso, fui aprovada em processos para marcas com atuação na Dinamarca, Suécia e Alemanha, também a partir de candidaturas online, mas optei por uma posição gerencial em desenvolvimento de produto na Itália.
Enfim, indicação tem peso nesse mercado. Mas não é o único fator. Formação sólida e trajetória consistente, quando bem estruturadas e bem posicionadas, continuam abrindo portas.
