Na apresentação da Prada Outono/Inverno 2026–27, durante a Milan Fashion Week, Miuccia Prada e Raf Simons voltaram a deslocar o foco da coleção para o próprio ato de vestir.
O layering aparece menos messy como efeito visual e mais como estrutura de pensamento, uma forma de observar como as roupas se constroem, se alteram e se adaptam ao longo do tempo.
A decisão de trabalhar com 15 modelos, cada uma retornando à passarela quatro vezes, organizou o desfile como um processo contínuo, e não como uma sequência de looks fechados.
A cada entrada, as peças eram reorganizadas ou modificadas por meio da retirada ou recomposição de camadas, tornando visível a transformação dos conjuntos e diluindo a ideia de uma imagem final definitiva.
Essa lógica também se manifestou nos materiais escolhidos por Miuccia Prada.
A alfaiataria precisa dividiu espaço com tecidos marcados pelo uso, superfícies propositalmente envelhecidas, bordados patinados e estampas florais que surgiam parcialmente sob outras peças.
Camisas amassadas, casacos de linhas tubulares e referências ao guarda‑roupa masculino foram combinados com vestidos delicados e elementos esportivos, criando tensões controladas entre ordem e desgaste.
O desfile aconteceu no Deposito da Fondazione Prada, edifício originalmente destinado ao armazenamento e hoje adaptado como espaço híbrido de arquivo, exposição e eventos.
O ambiente, ocupado por objetos, obras e mobiliários de diferentes períodos históricos, reforçou a ideia de acumulação e passagem do tempo, estabelecendo um diálogo direto com a proposta do layering como método.
Mais do que apresentar novas silhuetas, a coleção da Prada foi lida pela crítica como uma tomada de posição.
Em um cenário marcado pela aceleração do consumo e pela saturação de imagens, a Prada propôs uma reflexão sobre uso, recomposição e longevidade do guarda‑roupa, deslocando a atenção da novidade para a capacidade de transformação das próprias roupas.
Ao final, o desfile reafirmou a moda como um campo de pensamento sobre tempo, identidade e continuidade, consolidando a Prada como uma das poucas casas capazes de articular conceito, forma e cultura de maneira consistente.
