A ficção científica e a estética do futurismo retrô continuam a ser uma fonte inesgotável de inspiração para a moda de vanguarda.
Nesta temporada de Primavera-Verão 2026, duas maisons icônicas — Mugler e Rabanne — apresentaram visões contrastantes, mas igualmente impactantes sobre o futuro, ambas em ressonância com a obra-prima cinematográfica de 1927, Metropolis, de Fritz Lang.
Mugler: as Afrodites biônicas
A estreia do novo diretor criativo da Mugler, o português Miguel Castro Freitas (nomeado em março e com estreia marcada para a Primavera-Verão de 2026), foi um evento de impacto.
Honrando a herança do visionário Thierry Mugler — que fundou sua marca homônima em 1974 —, Castro Freitas apresentou a primeira parte de sua série “Trilogy of Glorified Clichés”, intitulada “Stardust Aphrodite”.
O cenário — um espaço urbano e escuro, em contraste proposital com o maximalismo da coleção — serviu como palco teatral, uma lição aprendida com o próprio Mugler, que via o cenário como elemento essencial.
A essência da coleção é a mulher biônica, que funde biologia e eletrônica — uma clara referência a Maria, a ciborgue de Metropolis —, um marco da ficção científica que já inspirara Thierry Mugler.
Castro Freitas revestiu o passado de “placas mecânicas”, robotizando a natureza. Vimos silhuetas acentuadas, corselets-joia, plumas exóticas em jaqueta e imagens híbridas de mulher e criatura alada, remetendo às coleções de alta-costura Mugler de 1997–1998.
As peças exploram a sensualidade, como o vestido etéreo cravejado de estrelas — sensualidade essa que, ao final, cedeu espaço a tecidos simples, de fluidez digna de Afrodite.
Rabanne: o futurismo otimista e a luz do Art Déco
Enquanto Mugler explorava as sombras do futuro biônico, Julien Dossena, na Rabanne, ofereceu “um véu de otimismo e o presságio de uma mudança disruptiva” em sua coleção primavera-verão 2026.
A visão de Dossena dialoga com o lado luminoso de Metropolis: o filme é, afinal, um “espelho cintilante” da era Art Déco — a arte da modernidade, da geometria exuberante, dos arranha-céus imaginários e dos interiores laqueados.
A coleção de Dossena celebrou a luz e a cor. Embora o metal — assinatura da Rabanne — estivesse presente, ele cedeu espaço a tons pastel e a uma atmosfera de verão vibrante.
Os looks incluíram saltos adornados com plumas, saias metálicas, roupas bordadas, motivos florais, listras e ziguezagues; peças casuais com um toque de moda praia, como camisas amarradas à cintura, leggings e calças capri.
Óculos retrô-futuristas e flores metálicas penduradas como colares evocavam o espírito mecha-design — design de robôs estilizados e tecnologicamente detalhados —, talvez uma sutil homenagem ao legado de Mugler.
O legado de Metropolis na moda
O filme Metropolis (1927) é mais do que apenas uma narrativa distópica; é um manifesto estético. Sua robô feminina (“fembot”) estabeleceu um arquétipo duradouro da “mulher ciborgue”, um símbolo da cultura mecânica que ainda ecoa na moda.
Realizado no contexto do Art Déco, Metropolis encapsula o futuro de sua época — o vidro, o aço, as linhas aerodinâmicas e a opulência geométrica.
O filme expressa o futurismo industrial típico dos anos 1920, com ênfase na estética desses materiais, símbolos da vertente arquitetônica e industrial do Art Déco e da modernidade mecanizada.
Este é o mesmo espírito de inovação técnica e glamour estrutural que Thierry Mugler dominou nos anos 1980 e 1990, e que agora o designer Miguel Castro Freitas reinterpreta em sua coleção “Stardust Aphrodite”.
Na Rabanne, Julien Dossena captura o otimismo futurista e a exuberância do Art Déco, transportando-os para uma paleta mais leve e feminina.
A moda desta temporada não olha apenas para frente; reverencia o passado futurista, usando a memória histórica e a inovação técnica para construir novos arquétipos de feminilidade — sejam elas Afrodites engenheiradas ou musas de um verão luminoso e otimista.
