Ao longo das últimas décadas, a Chanel foi moldada pela criatividade de um único homem, Karl Lagerfeld, que esteve à frente da maison por quase 40 anos.
Após o falecimento de Lagerfeld, em 2019, Virginie Viard — braço direito e assistente de longa data — assumiu a direção criativa da marca. Sua saída, no ano passado, deixou vaga uma das posições mais prestigiadas e influentes do mundo da moda, abrindo também espaço para o inesperado.
A escolha de Matthieu Blazy, estilista franco-belga de 41 anos, que conquistou reconhecimento por suas criações inovadoras em couro na Bottega Veneta, não parecia ser a decisão mais previsível.
No dia de sua estreia no Grand Palais, às margens do Sena, como conta a Vogue Itália, que acompanhou Blazy durante os quatro meses que antecederam o desfile, as modelos circulavam de roupão, com os cabelos presos por grampos. Faltavam quarenta minutos para o início do desfile, marcado para as 20h, e Blazy parecia sentir o peso da expectativa.
Na Raf Simons, onde ele começou, Blazy era conhecido por introduzir complexidade nas modelagens. Na Maison Margiela, ele desenhou máscaras cravejadas de cristais, tornando-se um dos emblemas da maison. Já seu trabalho na Bottega Veneta era marcado pelo artesanato e por ideias aparentemente contraditórias.
Nicole Kidman, embaixadora da Chanel, observa: “Desde que conheci Matthieu, fiquei impressionada com sua forma de enfrentar cada desafio com o coração.”
“Chegou o momento do grande salto”, disse Blazy, quando finalmente as modelos surgiram, uma a uma, na passarela. A nova Chanel de Matthieu Blazy entrava em cena.
Como discutido em nossas consultorias, a criação de uma coleção é um processo complexo. Após anos de experiência na moda e na criação de coleções para grandes marcas, posso facilmente imaginar o desafio envolvido no trabalho da Chanel.
A preparação da primeira coleção de Blazy durou quatro meses, entre o desenho de croquis, a seleção de tecidos, a visita aos ateliês e os testes de moulages. Cada peça passou por pelo menos duas revisões, e as escolhas de cores foram uma batalha constante.
O icônico tweed, por exemplo, recebeu nova textura e proporções. “Não quero reinventar a Chanel”, explica Blazy. “Quero traduzir sua essência para as mulheres de hoje.”
No ateliê, as costureiras — muitas das quais estão na maison há décadas — observam cada detalhe com um rigor quase cirúrgico e se surpreendem com Blazy. Monique, veterana com mais de 30 anos de casa, comenta: “Ele tem respeito pelo nosso trabalho. E é muito paciente. Isso não é comum para um diretor novo.”
Blazy passa horas analisando o caimento, as proporções e o movimento. Cada botão, cada fivela, é examinado sob luz natural. A maison, que sempre cultivou um segredo absoluto, agora permite que fotógrafos e cinegrafistas capturem os bastidores, mas apenas a partir de ângulos selecionados, preservando a aura de mistério.
O desfile em si misturou tradição e surpresa.
As modelos entraram em longas saias plissadas e casacos curtos de tweed; alguns vestidos tinham cortes assimétricos, outros se apoiaram em transparências sutis. A paleta neutra clássica foi quebrada por tons inesperados de azul celeste e pêssego, criando um contraste delicado. Sapatos e bolsas eram minimalistas, mas possuíam a assinatura Blazy: detalhes sutis, ergonomia e um toque de humor quase imperceptível.
Para os críticos de moda, é um retorno ao equilíbrio: a Chanel não é mais apenas um ícone do passado, mas também uma marca que dialoga com o presente e antecipa o futuro. Após o fim do desfile, Blazy aparece no backstage, sorrindo, parecia feliz e aliviado.
“Cada coleção é um risco”, confessa Blazy. “Mas também é um diálogo. E eu quero que esse diálogo continue.” Ele se sentou em uma cadeira simples, rodeado por sua equipe, com uma expressão que misturava cansaço e satisfação.
O resultado é um primeiro passo firme rumo a uma nova era.
Enquanto a noite se dissolve em flashes e aplausos, fica claro que a nova Chanel de Matthieu Blazy não é apenas sobre roupas: é sobre uma visão, uma narrativa e um tempo próprio.
Ele redefiniu a maison sem apagar sua história, mostrando que é possível ser revolucionário respeitando o legado.
