A maior temporada de estreias de estilistas começou com Demna Gvasalia na Gucci.
Uma apresentação que soou mais como um “aperitivo” da moda do que como um verdadeiro début.
A estreia de Demna para a maison foi transformada em uma première cinematográfica: um fashion film intitulado The Tiger, dirigido por Spike Jonze e estrelado por Demi Moore, que estavam sentados ao lado de Demna durante a exibição.
Antes da apresentação, que exibiu dezenas de looks em algo próximo de uma minicoleção, o designer já havia revelado suas primeiras ideias por meio de uma campanha chamada Gucci: La Famiglia. As peças foram mostradas em uma série de retratos de modelos fotografados por Catherine Opie, fotógrafa norte-americana contemporânea, conhecida por seus retratos intimistas e documentários visuais.
A coleção, uma releitura habilidosa dos clássicos da Gucci, trouxe os monogramas, o glamour de Tom Ford e o romantismo (um tanto excêntrico) de Alessandro Michele, além das estampas florais de Frida Giannini.
Não podemos deixar de notar os toques da era do estilista na Balenciaga, bem como seu talento em manejar volumes e silhuetas.
“Uma coisa que amo na Gucci é que sua história não é dominada por um único estilista. Muitas pessoas talentosas deram grandes contribuições. Para mim, não é apenas uma marca, mas um movimento cultural”, disse Demna, em tom descontraído e eufórico.
O evento ocorreu na Borsa, o antigo mercado de ações de Milão. Dezenas de fotógrafos e fashionistas registravam cada entrada, enquanto o público era mantido à distância por um cordão de segurança.
A coleção não sugeria um capítulo completamente novo, mas sim uma brilhante releitura dos clássicos, permeada de juventude, entusiasmo e um sutil senso de humor.
O début de Demna chega em um momento delicado para a maison e para o grupo Kering, que também controla Yves Saint Laurent, Bottega Veneta, Alexander McQueen e Balenciaga — marca onde ele atuou como diretor criativo por uma década.
O grupo Kering enfrenta desafios financeiros e estratégicos que têm afetado suas principais marcas, com destaque para a Gucci, considerada o coração do conglomerado.
Após a saída de Alessandro Michele, Sabato De Sarno assumiu a direção criativa da Maison, trazendo uma proposta mais sóbria e pragmática. No entanto, sua visão não conseguiu reverter a queda nas vendas nem no desempenho operacional da marca.
Assim, a escolha de Demna, ex-diretor criativo da Balenciaga, e a estreia da coleção La Famiglia surgem como um movimento estratégico para revitalizar a Maison, reforçando sua relevância cultural e comercial dentro do grupo.
O fashion film The Tiger revelou-se uma narrativa propositalmente caricata: Demi Moore interpreta Barbara Gucci, ícone da moda cuja família fundou a Maison em 1921, agora vivendo em uma gigantesca villa em Los Angeles com uma família disfuncional.
Em uma brincadeira de insiders, todos se reúnem para assistir à prévia da última coleção — com participação especial de Kendall Jenner — antes que alguém adicione ao champanhe a substância Conscious Bliss, deixando-os bêbados e provocando a fúria de um jornalista da Vanity Fair, vivido pelo rabugento Ed Harris.
Na maior parte do filme, o elenco veste os looks de Demna, com figurinos assinados por Arianne Phillips.
Tanto na cápsula quanto no filme, Demna explora os arquétipos da “Gucciness”.
“Cresci descobrindo a moda graças a Tom Ford, assistindo aos desfiles da Gucci na Fashion Television quando era um garoto na Geórgia”, revelou Demna.
“Pensei que La Famiglia fosse uma boa forma de retornar à narrativa da Gucci, voltando ao futuro através do passado”, acrescentou, informando que pretende dividir seu tempo entre Milão e Los Angeles, preparando sua primeira coleção e desfile para fevereiro.
Um começo, no mínimo, interessante para Demna na Gucci, já com sinais de sensibilidade à tradição da Maison. Resta ver se a próxima temporada, em fevereiro, confirmará este novo capítulo com a mesma força narrativa.
