Descubra as coleções SS26 que transformaram passarelas em narrativas, unindo surrealismo, rebeldia e poesia.
A temporada de primavera/verão 2026 mostrou uma Londres ousada e experimental e uma Madri transformada em um palco de celebração. Do surrealismo de Erdem ao drama de Simone Rocha e à homenagem apaixonada de Carolina Herrera, a moda provou mais uma vez sua força em atravessar tempos, lugares e emoções para se reinventar como espetáculo.
Erdem: a musa esquecida
Na temporada SS26, Erdem Moralioglu resgatou do esquecimento a enigmática Hélène Smith — médium, artista e visionária excêntrica do século XIX. Sua vida, marcada por sessões espíritas, diálogos com Victor Hugo e viagens em transe que iam de Versalhes até Marte, transformou-se em matéria-prima para uma coleção de imaginação arrebatadora.
Na passarela erguida sob as colunas imponentes do British Museum, a narrativa ganhou forma em vestidos de renda bordados com frases, letras e números — os textos de Smith reinterpretados como moda. Flores e pétalas cobriam vestidos, enquanto bustiês e tules engomados evocavam uma sensualidade estruturada, quase fantasmagórica. O espírito de Versalhes surgia em colarinhos altos e elementos que remetiam a Maria Antonieta; já a Índia sonhada por Smith se fundia ao imaginário cósmico em esculturas de linho neon, combinadas a sapatos amarrados com fitas.
Simone Rocha: a rebeldia em cena
Da sobriedade neoclássica do museu à grandiosidade da Mansion House, Londres continuou a desafiar os códigos. Simone Rocha apresentou sua coleção SS26 que, mesmo para seus padrões, foi um salto ousado. Foram 52 silhuetas que mesclaram épocas e linguagens, em uma coreografia de exagero e delicadeza.
Georgette de cetim, jacquards florais e organzas de seda se transformaram em crinolinas — armações usadas sob saias ou vestidos para dar volume e forma arredondada — e fraques venezianos, logo cobertos por trench coats transparentes. A estilista chamou suas protagonistas de “debutantes descontentes”, jovens mulheres obrigadas a herdar roupas maternas e, em um ato de rebeldia, reinventá-las à sua maneira. Esse espírito pulsava em uma crinolina, combinada a uma saia estampada de flores minúsculas, a um sutiã de paetês prateados e a uma delicada tiara floral de debutante.
Rocha confessou ter buscado “ir além de seus códigos fundamentais”. Isso significou expor crinolinas sob organzas translúcidas, acrescentar irreverência com sutiãs e acentuar o fetiche dos sapatos — plataformas com molduras georgianas e sandálias em plexiglass.
O risco rendeu recompensa: aplausos de pé calorosos que consagraram Rocha como uma das vozes mais talentosas da moda londrina.
Carolina Herrera: uma carta de amor a Madri
Se Londres olhou para o surreal e o experimental, Madri foi tomada pelo lirismo de Carolina Herrera na SS26. Pela primeira vez em sua história, a maison apresentou sua coleção principal fora de Nova York, escolhendo a Plaza Mayor como palco de um espetáculo que foi, acima de tudo, uma carta de amor à cidade.
Wes Gordon, diretor criativo da marca, declarou ter se inspirado na intensidade madrilenha: sua energia vital e sua paleta de contrastes. Essa devoção traduziu-se em uma passarela monumental que reuniu modelos icônicas espanholas, como Esther Cañadas e Blanca Padilla, em um percurso de mais de um quilômetro pela belíssima praça, cercada por edifícios de três andares com pórticos que, ao longo dos séculos, já foi palco de mercados, touradas e outros eventos públicos.
A coleção exaltou os símbolos da cidade: cravos bordados em jacquard, violetas transformadas em volumes tridimensionais e rosas do Retiro aplicadas em tecidos etéreos. Os céus de Goya e as cores saturadas de Almodóvar inspiraram uma cartela vibrante que unia vermelho Herrera, bordô, lilás e rosa elétrico, ao lado do preto absoluto de vestidos dramáticos. Referências taurinas surgiram em calças ajustadas e volumes nos quadris, enquanto mangas de chulapa e babados populares se reinventaram em chave sofisticada.
O desfile também foi marcado por colaborações com marcas e artesãos espanhóis: da sensibilidade vanguardista de Sybilla às camadas românticas de Palomo, passando pelas capas de Seseña e as joias artesanais de Andrés Gallardo e Levens.
Fashion Week SS26: entre o surreal e o poético
Entre a Londres que ousa flertar com o surreal e a Madri que se reafirma como palco de poesia e celebração, a primavera/verão 2026 mostrou que a moda continua a ser um território de risco e revelação. Mais do que roupas, vimos narrativas, símbolos e fantasias ganharem corpo na passarela. E é justamente nesse cruzamento — entre memória e futuro, delicadeza e rebeldia, intimidade e espetáculo — que a moda encontra sua força inesgotável: a de reinventar o mundo a cada temporada.
