Demna encerra sua trajetória na Balenciaga com uma coleção que resgata o brilho de Hollywood e reinventa os códigos da maison.
Após mais de uma década de criatividade disruptiva, Demna se despediu da Balenciaga com uma coleção que revisita o glamour de Hollywood e reinterpreta os códigos clássicos da Maison. Como já anunciado, ele agora assume a direção criativa da Gucci, em Milão, liderando a principal marca do grupo Kering, que também controla a Balenciaga.
O ateliê de alta-costura da Balenciaga, na Avenue George V, em Paris, foi o cenário do desfile, marcado pela chegada de limusines que atravessavam uma multidão de fãs até a entrada. Entre os convidados, Kyle MacLachlan, Justine Skye e Cardi B atraíram olhares — especialmente Cardi com um look de renda preta e uma peruca dramática, evocando o estilo Cruella De Vil.
Kim Kardashian, embaixadora da Balenciaga, surgiu na passarela com um vestido tubinho em tom marfim, inspirado no clássico Gata em Teto de Zinco Quente. O look foi complementado por um casaco de penas brancas e um colar que remetia aos lendários brincos de diamantes de Elizabeth Taylor — peças emprestadas da coleção de Lorraine Schwartz. Segundo Demna, tratava-se de um tributo à icônica atriz.
Em um gesto de reverência à história da maison, Demna resgatou um conjunto pied-de-poule originalmente usado por Danielle — a modelo preferida de Cristóbal Balenciaga — em 1967. A peça, segundo ele, evocava a toalha de mesa da cozinha de sua avó, criando uma conexão entre memória pessoal e legado da marca.
Sua paixão pela era dourada de Hollywood também se fez presente: surgiu em um vestido preto de paetês, claramente inspirado em Marilyn Monroe, e em um modelo rosa confeccionado em organza técnica ultraleve — um exemplo notável de inovação têxtil.
Conhecido por atualizar a corseteria, o estilista voltou a apostar em peças confortáveis e livres de restrição. Em conversa com a imprensa, contou que o ponto de partida da coleção foram os códigos de vestimenta da burguesia: alfaiataria rígida, lapelas em forma de tulipa, golas à la Médici e decotes à la Nosferatu.
Sua “Marianne” — ou noiva couture — foi apresentada pela modelo Eliza, com um vestido de renda guipure sem costuras, produzido com técnicas de chapelaria, num gesto de minimalismo surpreendente.
“Essa é a minha história de amor com Paris, onde moro há 15 anos — mais do que vivi na Geórgia, meu país de origem. É uma cidade que amo e odeio.”
Nesta apresentação, ele trabalhou com quatro alfaiates tradicionais de Nápoles, desenvolvendo jaquetas-camisa desconstruídas, que se tornaram o símbolo da coleção.
“Os alfaiates estão acostumados a fazer roupas para homens com barriga saliente, então foi um verdadeiro desafio… Quis mostrar que não é a roupa que define o corpo, mas o corpo que define a roupa.”
Ele também encomendou à Lorraine Schwartz milhares de quilates em joias, com diamantes brancos, esmeraldas, safiras padparadscha, além de diamantes rosa e amarelo-canário — acessórios que acompanharam toda a coleção.
“Esta coleção é a forma perfeita de encerrar minha trajetória na Balenciaga. Cheguei o mais próximo possível da satisfação nessa busca infinita por uma perfeição impossível — o ethos de Cristóbal Balenciaga.”
Com um gesto elegante, a trilha sonora do desfile incluiu a leitura dos nomes de todos os integrantes do ateliê, terminando com “Demna” — um gesto que emocionou grande parte da equipe.
De acordo com o FashionNetwork, Demna respondeu de forma direta quando falou sobre sua nova fase na Gucci:
“Aprendi que, ao entrar numa marca com tradição e códigos definidos, ou você é sortudo e encontra uma abundância de códigos para modernizar, ou eles são limitadores. Adoro a Balenciaga, mas seus códigos não correspondiam ao tamanho que a marca se tornou. Durante dez anos, tive que trabalhar com o casulo e a ampulheta… mas não era o suficiente. Por isso, precisei inserir muitos códigos meus dentro da Maison.
No meu próximo capítulo, terei o luxo de trabalhar com muitos códigos que nunca usei antes. Isso me empolga muito. Sou bom no que faço — sou como um chef: quanto mais ingredientes tenho, mais emocionante é criar um prato.”
Não podemos deixar de concordar com Demna — é exatamente assim que trabalhamos em nossas consultorias de moda: ajudamos a criar códigos que definem o estilo de marcas, sejam elas novas ou já estabelecidas, e não há nada mais gratificante do que isso.
Estamos curiosos para ver o que esse novo capítulo de Demna na moda nos reserva!
