Entre cogumelos gigantes e um tweed que flutua, o debut de Blazy na Couture da Chanel é um manifesto sobre liberdade, técnica e o novo luxo sensorial.
O Grand Palais sempre foi o palco das grandes transformações da moda, mas, nesta terça-feira parisiense, ele testemunhou algo raro: a desmaterialização do peso.
Sob uma cenografia onírica — uma floresta de salgueiros rosa-confete e amanitas muscárias gigantes brotando de um carpete bubblegum — Matthieu Blazy apresentou sua primeira coleção de Haute Couture para a Chanel.
O veredito foi unânime entre a primeira fila, estrelada por Dua Lipa e Nicole Kidman: a Chanel nunca foi tão leve.
O palimpsesto de Matthieu Blazy: transparência como narrativa
Blazy, conhecido por seu olhar experimental (quem não se lembra do “jeans de couro” em sua era Bottega?), aplicou sua alquimia visual aos códigos de Coco Chanel. O desfile abriu com uma série de tailleurs em mousseline de seda tão etérea que parecia desafiar a gravidade.
O destaque absoluto foi o conceito de “bolsa palimpsesto”. Blazy expôs a “vida interior” da bolsa Chanel 2.55, o acessório mais icônico do mundo, criando versões translúcidas que revelam a estrutura e a alma da construção manual.
Para a geração que valoriza a transparência radical, Blazy transformou o segredo do atelier em exposição artística.
Craftsmanship 2.0: o triunfo da maison Lemarié na Couture Chanel
Se a alta-costura é o laboratório da moda, o plumassier Lemarié foi o cientista-chefe desta temporada. O tema “Cacatua-Crestada” não foi apenas uma metáfora; foi uma proeza técnica.
Por meio de um corte micrométrico, camadas densíssimas de penas foram aplicadas para imitar a textura do bouclé e da lã. O resultado é visualmente opaco, mas tátilmente leve como o ar.
Patchworks de penas recriaram figuras da mitologia grega, elevando o trabalho manual ao status de alta joalheria têxtil.
Em um jogo de trompe-l’oeil sofisticado, Blazy enviou à passarela calças que simulavam jeans azuis, mas eram, na verdade, camadas de chiffon impalpável — o ápice do cool sem esforço.
Couture Chanel por Matthieu Blazy: um ecossistema de luxo e tecnologia
A estratégia por trás do espetáculo é clara.
Como pontuou Bruno Pavlovsky, presidente da Chanel SAS, a maison conta hoje com um ecossistema único no Le 19M, seu hub de artesãos em Aubervilliers, que reúne cinco ateliers de alta-costura e um sexto dedicado exclusivamente às fitas — ou galons, em francês —, elementos decorativos têxteis que servem para dar acabamento, estrutura e ornamentação às roupas.
Blazy tem à disposição ferramentas que poucas casas no mundo possuem.
“A alta-costura é o fundamento da maison. São roupas feitas sob medida, como uma segunda pele, desenhadas para a vida real e para as histórias que as mulheres decidem contar”, afirmou Blazy após o desfile.
A atmosfera elegíaca foi reforçada por uma trilha sonora que uniu o melhor da cultura millennial e Gen Z: de Moby e Oasis à voz melancólica de Joan Baez. Foi um lembrete de que, embora a Chanel seja uma instituição centenária, ela habita o agora.
Ao reunir mulheres maduras e novos rostos, como a indiana Bhavitha Mandava, o casting reforçou que a elegância proposta por Blazy não tem idade, mas é, sobretudo, uma questão de atitude.
Entre os aplausos finais, ficou claro que este não é apenas um período de transição para a Chanel, mas o início de uma era em que o rigor da construção se encontra com a poesia da liberdade.
