A coleção Primavera/Verão 2027 de Matthieu Blazy para a Chanel consolida um projeto que vem se desenhando desde sua chegada à Maison: transformar o arquivo em matéria-prima para o desenvolvimento de produto.
Em vez de reproduzir os códigos da casa, Blazy os desmonta, desloca e reconstrói por meio de materiais, proporções, técnicas e silhuetas contemporâneas, criando continuidade sem recorrer à simples repetição.
O sucesso de uma marca raramente se decide apenas na passarela. Ele se constrói, sobretudo, na direção de produto e na capacidade de transformar códigos reconhecíveis em objetos de desejo que ganham relevância cultural e demanda comercial — algo que temos discutido nas análises do Observatório de Tendências.
No desfile de Primavera/Verão 2027, Blazy aprofunda essa estratégia ao articular o legado de Gabrielle Chanel com uma abordagem quase arquitetônica da roupa. A coleção percorre diferentes momentos da trajetória da fundadora, da juventude eduardiana à construção do guarda-roupa que se tornaria sinônimo de Chanel, sem tratar essas referências como patrimônio estático.
A 2.55 original de Gabrielle Chanel, retirada do arquivo da Maison, abriu e encerrou o desfile, estabelecendo uma ponte entre passado, presente e futuro.
Essa lógica aparece também na maneira como Blazy trabalha os códigos históricos. Elementos como corseteria, peplums, golas de babados e referências ao universo de Pierrot são deslocados de seu contexto original e incorporados a silhuetas mais leves e contemporâneas. A referência a Jean-Antoine Watteau, particularmente, remete a um look usado por Gabrielle Chanel em 1939 e reaparece na coleção por meio das amplas golas e dos babados reinterpretados pelo designer.
O diálogo com a arte também é central. A própria Chanel associa determinados looks da coleção ao universo do pintor francês Édouard Vuillard, enquanto outras passagens evocam o balé e a relação histórica da fundadora com diferentes linguagens artísticas. Essas referências reforçam a construção de uma coleção que trata o patrimônio cultural da Maison não como arquivo estático, mas como material ativo de criação.
É nesse ponto que a ideia de engenharia de produto revela sua função central.
Blazy não trata o tweed apenas como um símbolo da Chanel, mas como um material passível de transformação. O novo tweed smocked apresentado no desfile, por exemplo, introduz elasticidade e movimento em uma das peças mais codificadas da Maison: o tailleur. O resultado preserva a identidade visual do conjunto, mas altera radicalmente sua relação com o corpo e com o movimento.
Essa lógica não se limita à passarela. Ao longo de seu primeiro ano na Chanel, Blazy vem construindo uma linguagem que atravessa diferentes categorias e coleções. Na Métiers d’Art 2026, por exemplo, o trabalho artesanal transformou referências animais em tecidos complexos, incluindo um tweed de leopardo desenvolvido pela Lesage. A peça se tornou um exemplo claro de como o savoir-faire pode ser utilizado não apenas para preservar o patrimônio da Maison, mas para criar novos objetos de desejo, ampliando as possibilidades de linguagem da marca.
A resposta do mercado ajuda a dimensionar esse movimento. Em outubro de 2026, Bruno Pavlovsky, presidente de moda da Chanel, afirmou que as coleções de Blazy estavam vendendo com força e que havia uma nova energia entre a Maison e seus clientes. No mesmo período, a Chanel ocupava o topo do ranking da Lyst entre as marcas mais desejadas do mundo nos dois trimestres anteriores.
Na coleção SS27, essa estratégia aparece acompanhada por uma leitura contemporânea do comportamento feminino. Blazy parte da ideia de que uma mulher não pertence a uma única época ou código visual: ela mistura décadas, referências e registros distintos. Essa perspectiva se reflete na convivência entre alfaiataria masculina, lingerie, tweed, transparências, tules, minissaias e vestidos fluidos.
E a escolha de encerrar o desfile ao som de Britney Spears, com “Gimme More”, pode ser lida menos como um gesto gratuito de cultura pop do que como uma síntese do projeto: preservar a densidade histórica da Chanel sem permitir que ela se torne pesada ou solene.
É justamente aí que Matthieu Blazy parece encontrar seu espaço dentro da Chanel: não na ruptura pela ruptura, mas na capacidade de transformar patrimônio em produto contemporâneo. Sua inovação não está em abandonar os códigos da Maison, mas em descobrir quantas vidas ainda podem existir dentro deles.
Na minha visão, esse é um dos aspectos mais interessantes do trabalho de Blazy. Seu mérito não está apenas na construção de uma coleção visualmente atraente, mas na capacidade de traduzir patrimônio em produto contemporâneo sem esvaziar seu significado.
Em um momento em que muitas marcas perseguem a relevância por meio da ruptura, Blazy demonstra que a inovação também pode nascer da profundidade do conhecimento sobre uma marca. Os resultados sugerem que essa estratégia encontra eco no mercado: não por acaso, a Chanel segue entre as marcas mais desejadas da indústria da moda.
Sobre a autora
Fernanda Zeemann atua entre o desenvolvimento de coleção, o produto de moda e o posicionamento de marca. Professora do Istituto Marangoni (Florença) e da Accademia del Lusso (Roma), construiu sua trajetória profissional em empresas como Versace, Marni e Burberry, conciliando prática de mercado, pesquisa e ensino.
No My Fashion Blomme, seus artigos analisam a moda como sistema, observando como produto, coleção, linguagem, posicionamento e estratégia se articulam na construção de valor para marcas, profissionais e mercados.
