Observatório de Tendências, nosso curso no Blomme, vai muito além de uma referência: é um verdadeiro laboratório de ideias e investigação criativa, uma lente apurada para antecipar o que vem por aí. É dali que nascem insights preciosos para minhas aulas, treinamentos, consultorias e coleções construídas com equilíbrio e intenção.
Para o Outono/Inverno 2026–27, o tweed Donegal se destaca como um exemplo de tecido clássico da sartoria masculina que virou tendência. Cada marca imprime sua narrativa autoral: Jonathan Anderson, na Dior, transforma o tecido em um exercício de subversão histórica; Prada mergulha em sua profundidade com uma abordagem quase arqueológica; Dolce & Gabbana o traduzem em uma estética de viés pictórico.
Nascido nas paisagens rurais da Irlanda, o Donegal era originalmente tecido à mão, com fios irregulares formando os famosos neps — os pequenos pontos coloridos da lã. Resistente por tradição, usado por caçadores e trabalhadores rurais, hoje ele é reinventado em peças que carregam história e personalidade.
A textura pontilhada do Donegal não é apenas singular: é versátil, narrativa e poderosa. Cada interpretação conta um universo próprio — e todas permanecem incrivelmente atuais.
Dior e o Tweed Donegal: subversão histórica & “aristo-youth”
Sob a direção de Jonathan Anderson, a Dior Men utiliza o tweed Donegal para realizar aquilo que o estilista define como uma “reconstrução da formalidade”.
Anderson parte dos códigos mais formais da maison — em especial a jaqueta Bar e os fraques do século XVIII — e os executa em tweed Donegal irlandês. Ao aplicar um tecido rústico e pontilhado a silhuetas de alta-costura, ele desconstrói a rigidez tradicional das roupas associadas ao status.
E com isso, a jaqueta Bar em tweed Donegal tornou-se o ponto focal da temporada. Anderson “recodifica” essa peça icônica do arquivo feminino, transformando-a em um elemento central do guarda-roupa masculino, frequentemente combinada a jeans desgastados ou calças com espírito de loungewear. O resultado é o que ele chama de “aristo-youth”: uma fusão entre a opulência do velho mundo e a errância contemporânea.
Prada: minimalismo “arqueológico”
Miuccia Prada e Raf Simons exploram o tweed Donegal — junto a lãs densas de textura semelhante — para evocar uma sensação de duração e memória humana.
A coleção, intitulada Before and Next, gira em torno do conceito de “beleza interrompida”. As texturas de estilo Donegal fazem com que as peças pareçam carregar “marcas de vida”. A escolha do tecido sustenta o afastamento de volumes oversized, privilegiando silhuetas estreitas e alongadas.
Casacos tubulares de abotoamento alto e calças com leve abertura na barra. Os neps — os pequenos pontos coloridos da lã — acrescentam complexidade visual a uma coleção de precisão quase cirúrgica, sugerindo que, mesmo diante da imprevisibilidade do mundo contemporâneo, o cuidado e a inteligência dos tecidos tradicionais oferecem uma sensação de segurança e, por que não, pertencimento.
Dolce & Gabbana: o “retrato do homem”
Para a Dolce & Gabbana, o tweed Donegal é mais do que um tecido: é personalidade, individualidade, um manifesto da masculinidade em múltiplos arquétipos. Nesta coleção, concebida como uma “galeria de retratos”, o tecido dialoga com texturas bouclê, criando um jogo tátil de claro-escuro que vai muito além da alfaiataria convencional.
Blazers estruturados, com ombros bem definidos, transformam a lã pontilhada em quase uma tela pictórica. O tweed robusto contrasta com coletes de veludo, pijamas de seda ou broches preciosos, reforçando a ideia da roupa como autorretrato psicológico. O “Sensualista Mediterrâneo” — figura central da coleção — aparece envolto em tons sal e pimenta, entre camisas de seda transparente ou torsos nus, equilibrando a aspereza do tweed com a vulnerabilidade da pele. Masculinidade como fricção: forte, sensual e consciente de si.
A paleta foge do óbvio azul mediterrâneo. Neps coloridos evocam uma Sicília mais terrosa, queimando sob o sol: marrom tabaco, cinza pedra, argila tostada. Tons que falam de tempo, calor e memória.
E a Dolce Vita? Aqui, ela é subvertida. Tradicionalmente associada a sedas líquidas e riscas de giz impecáveis, ganha novos contornos com o tweed Donegal, entrando no território do eveningwear e redefinindo o luxo noturno. Coppolas sicilianas e casacos pesados — símbolos históricos do vestuário camponês e operário — são reinterpretados, dissolvendo fronteiras entre tradição e desejo contemporâneo.
O resultado é quase cinematográfico: o grão pontilhado do tweed ecoa a fotografia 35mm do neorrealismo italiano. Modelos que parecem ter saído diretamente de um set de Fellini ou Visconti fazem com que a moda se transforme em imagem em movimento, entre ficção e realidade.
O Tweed Donegal e as passarelas de Outono/Inverno 2026–27
O tweed Donegal prova, mais uma vez, que um tecido também é narrativa, personalidade e identidade. Entre a subversão histórica da Dior, o minimalismo quase arqueológico da Prada e os retratos psicologicamente ricos da Dolce & Gabbana, cada interpretação transforma o mesmo tecido em universos distintos.
A lição é clara para designers e apaixonados por moda: ler, reinterpretar e reinventar uma tendência mantém uma coleção viva, atual e inesquecível.
O Observatório de Tendências, assim, vai muito além de um laboratório de ideias — é o fio invisível que conecta o passado, o presente e o futuro da moda. Mostra que a essência de uma marca se revela na forma como ela conversa com o tecido, a história e o olhar do seu tempo.
