O desfile de inverno 2026/27 da Schiaparelli reafirma a casa como um dos territórios mais consistentes do surrealismo contemporâneo na moda. Sob a direção criativa de Daniel Roseberry, a marca segue aprofundando uma linguagem que recusa o óbvio e o confortável, apostando no impacto visual, na tensão entre artifício e corpo e na ilusão como eixo conceitual e técnico.
Desde que assumiu a direção criativa em 2019, Roseberry vem atualizando os códigos históricos da maison sem recorrer à nostalgia literal. Nesta coleção, isso se traduz em um trabalho preciso sobre trompe-l’œil, metal, joalheria e detalhes anatômicos que provocam o olhar e desafiam a percepção. A cliente Schiaparelli não busca o “clássico” nem o “seguro” — e o desfile deixa isso claro ao apostar em roupas que, mesmo quando usáveis, nunca são neutras.
Batizada de “The Sphynx”, a coleção foi construída em torno do poder da ilusão.
A referência não é apenas simbólica: o título evoca um broche histórico ligado ao universo da casa e reforça a ideia de enigma, ambiguidade e leitura dupla. Nada ali é exatamente o que parece à primeira vista. Tecidos, superfícies e estruturas criam efeitos ópticos que fazem as peças parecerem flutuar, desaparecer ou se fundir à pele.
O cenário reforçou essa narrativa. Em uma passarela escura, cuidadosamente coreografada pela luz, cada modelo surgia de áreas de sombra para pontos precisos de iluminação. O espaço, integrado ao Carrousel du Louvre, funcionou como um palco dramático, onde o controle da luz amplificava brilhos, volumes e texturas. A encenação não era acessória: fazia parte ativa da leitura da coleção, intensificando os efeitos visuais das roupas.
Nas peças, o trompe-l’œil aparece de forma literal e sofisticada. Estampas que simulam pele ou pelagem surgem em casacos jeans com mangas robustas; vestidos de tricô recebem impressões de corpo com efeito solarizado; e painéis de tule quase invisível são inseridos em suéteres de malha grossa, calças de alfaiataria e vestidos de noite bordados, criando a sensação de que partes da roupa pairam diretamente sobre a pele nua.
O truque do desfile não está apenas na superfície, mas na engenharia do olhar.
A silhueta da coleção aposta em estrutura e alongamento. Ombros marcados, casacos de corte preciso, vestidos-camisa de cetim e alfaiataria afiada moldam o corpo sem suavizá-lo. Há uma sensualidade controlada, quase clínica, que se constrói mais pela sugestão do que pela exposição direta. Mesmo quando as roupas abraçam o corpo, mantêm uma rigidez arquitetônica que impede qualquer leitura romântica.
As texturas desempenham papel central. Saias de seda acetinada com brilho líquido, barras projetadas em pontas agudas e cetins laminados enrolados em dobras esculturais criam superfícies que respondem intensamente à luz. Em contraste, surgem malhas transparentes, acabamentos de plumas e casacos oversized de faux fur, estabelecendo um diálogo constante entre o macio e o rígido, o fluido e o sólido.
Alguns momentos se impõem como declarações claras da coleção. Um dos mais emblemáticos é a saia longa prateada construída a partir de milhares de CDs cortados a laser, transformados em paetês, combinada a uma jaqueta preta bordada com fita cassete. O gesto sintetiza a proposta do desfile: transformar materiais reconhecíveis em algo estranho, quase inquietante, por meio de técnica extrema.
A corsetaria segue a mesma lógica de estranhamento. Tops estruturados recebem enchimentos e sobreposições que criam volumes irregulares, evocando formas corporais “imperfeitas”, quase orgânicas. Malhas caneladas com recortes e acabamentos ondulados reforçam essa sensação de um corpo redesenhado, onde a anatomia deixa de ser previsível.
A paleta, dominada por preto, marfim, bronze e tons metálicos, funciona como base neutra para que brilhos, reflexos e superfícies ganhem protagonismo. Mais do que cor, o desfile trabalha com luminosidade — cada material reage de forma diferente à luz, ampliando o efeito cenográfico da apresentação.
Nos acessórios, o surrealismo da Schiaparelli atinge seu ponto mais explícito.
Bolsas parecem ser atravessadas por garras douradas de pássaros, enquanto mules apresentam saltos que assumem a forma de gatos sibilantes, com realismo perturbador. O metal dourado, recorrente, atua como assinatura e ligação direta com o DNA histórico da casa.
A coleção de inverno 2026/27 da Schiaparelli se organiza de forma consistente em torno da ilusão e da ambiguidade visual, conceitos explicitamente assumidos por Daniel Roseberry tanto no título “The Sphynx” quanto nas soluções técnicas apresentadas em passarela. O uso recorrente do trompe‑l’œil, a combinação de materiais que parecem contrariar sua própria natureza e a presença constante de códigos históricos da maison — como o keyhole, a anatomia e o humor surrealista — estruturam uma narrativa baseada em contradições visuais deliberadas.
Nesse contexto, a coleção evidencia a abordagem de Roseberry para uma casa de herança: trabalhar a tensão entre passado e presente sem recorrer à reprodução literal de arquivos. Elementos ligados ao repertório de Elsa Schiaparelli são reintroduzidos por meio de novas técnicas, materiais e escalas, criando uma continuidade conceitual que se manifesta tanto nas roupas quanto nos acessórios.
Assim, o desfile reafirma um posicionamento claro da Schiaparelli dentro do seu próprio universo criativo. Mais do que apresentar propostas isoladas, a coleção articula um vocabulário visual coerente, no qual ilusão, artifício e construção se tornam ferramentas centrais para atualizar o legado surrealista da maison no contexto contemporâneo.
