A coleção Spring/Summer 2026 da Louis Vuitton marcou uma interessante mudança de direção. O desfile aconteceu no Musée du Louvre, nos apartamentos de verão de Ana da Áustria, rainha da França, um local escolhido intencionalmente, símbolo de sofisticação e liberdade privada.
Nicolas Ghesquière quis transmitir a sensação de se vestir para si mesmo, mesmo em casa: “Queria a serenidade que se sente no conforto do próprio lar. Hoje, é possível se vestir com sofisticação mesmo em casa. Não se trata apenas de usar calças de moletom.”
A cenografia, criada por Marie-Anne Derville, percorreu o gosto francês do século XVIII até os dias de hoje, com salas de estar, bibliotecas e até uma banheira, criando uma atmosfera “cocoon”. A trilha sonora, com Cate Blanchett recitando a letra de This Must Be the Place de David Byrne dos Talking Heads, completou o ambiente.
Materiais naturais, malhas e técnicas de alfaiataria deram vida a golas altas, drapeados, calças masculinas e tops construídos como arquiteturas leves, conjuntos brilhantes tipo pijama de diva e camisolas bordadas e microplissados. O resultado é uma coleção que une suavidade, liberdade e alfaiataria — uma verdadeira “virada” na estética da Louis Vuitton.
Entre as convidadas da maison estavam Zendaya, Emma Stone e Jennifer Connelly, além de executivos da LVMH e influenciadores internacionais.
Saint Laurent: nylon, realeza e Rive Gauche
Anthony Vaccarello, para a Saint Laurent, apresentou uma coleção feminina que mistura ambiguidade, realeza e materiais técnicos. O desfile aconteceu em frente à Torre Eiffel, com um cenário inspirado nos jardins e na história da maison.
Na primeira fila, estrelas como Madonna, Renée Zellweger, Zoë Kravitz, Hailey Bieber, Linda Evangelista e Kate Moss assistiram a vestidos em nylon superleve, trench coats e saharianas, com detalhes ousados como grandes laços, jaquetas de couro e bombers com mangas arredondadas.
O nylon tornou-se protagonista da coleção, reinterpretando materiais tradicionais de forma moderna e leve. Os vestidos, aéreos e técnicos, evocam referências históricas como La Reine Margot e Madame X, de John Singer Sargent, mas com uma abordagem contemporânea, elegante e experimental. Couro preto e transparências diáfanas se combinam para criar um jogo de sedução e poder, em perfeita sintonia com a silhueta Rive Gauche.
Vale lembrar que Margarida de Valois, rainha da França, foi eternizada por Alexandre Dumas como um ícone de charme e escândalo em La Reine Margot. Já no fim do século XIX, Paris se escandalizou com Madame X, o célebre retrato da socialite Virginie Gautreau, pintado por John Singer Sargent. Uma única alça deslizando do ombro foi suficiente para provocar indignação, manchar reputações e levar o artista ao exílio. Décadas depois, a obra que antes fora rejeitada passaria a ser celebrada como uma das maiores realizações de Sargent.
Assim, as criações de Vaccarello resgatam histórias que atravessaram os séculos, envoltas em poder, fascínio e escândalo — lembrando que cada silhueta carrega não apenas estilo, mas também legados e narrativas.
Como professora de moda, acompanhar, ainda que à distância, as coleções de casas como Louis Vuitton e Saint Laurent reafirma a minha convicção na força criativa dos designers e sua permanente capacidade de nos surpreender.
Nos desfiles da primavera/verão 2026 em Londres, Milão e agora em Paris, cada silhueta e detalhe evidencia como a moda contemporânea se reinventa, inspirando novas formas de criação e conduzindo a indústria por caminhos inéditos.
