Na Milano Fashion Week, a Dolce & Gabbana apresentou sua coleção Fall/Winter 2026–27 reafirmando um posicionamento que atravessa a história da marca: a identidade como luxo. Em um cenário de moda marcado por mudanças rápidas e discursos cada vez mais voláteis, Domenico Dolce e Stefano Gabbana seguem apostando na força de um repertório visual construído ao longo de décadas, reconhecível à primeira vista e sustentado por uma linguagem própria.
O desfile aconteceu no Metropol Dolce & Gabbana, em Milão, edifício que abrigou um cinema inaugurado em 1955 e que, após ser reformado em 2005, tornou‑se um espaço privado de eventos da maison. Hoje, o local funciona como palco recorrente das apresentações da marca, estabelecendo uma relação contínua entre espaço, narrativa e identidade. A permanência desse endereço no calendário da grife reforça uma ideia de autoria e consistência que acompanha o discurso da coleção.
Batizada de Identity, a coleção da Dolce & Gabbana percorreu com clareza os códigos históricos da casa.
O preto dominou a passarela, acompanhado por rendas, transparências e pela presença explícita da lingerie, elementos que fazem parte do vocabulário da Dolce & Gabbana desde suas origens. Aqui, esses recursos aparecem organizados de forma precisa, criando uma sensualidade contida, construída mais pela intenção e pelo controle do que pelo excesso.
A alfaiataria ocupou um papel central. Silhuetas de inspiração masculina, com ombros marcados, risca de giz e construções rigorosas, surgiram em diálogo constante com tecidos leves e superfícies translúcidas. O contraste entre estrutura e delicadeza não se apresenta como oposição, mas como convivência, resultando em um guarda‑roupa que articula força e suavidade com naturalidade e equilíbrio.
Mais do que propor rupturas, a coleção aponta para a consolidação. A Dolce & Gabbana deixa claro que seu olhar não tem a ver com nostalgia, mas com presença. As referências à Sicília, território simbólico da marca, atravessam o desfile de maneira sensorial, sem recorrer à literalidade, funcionando como base emocional e cultural da narrativa.
Dentro desse contexto, pela coerência do conjunto, pelo equilíbrio entre formas, materiais e proporções e por uma paleta de cores deliberadamente contida, o trabalho apresentado pela Dolce & Gabbana se afirma como um exercício de consistência e maturidade criativa.
Um desfile que não depende de excessos para causar impacto e que encontra força justamente na harmonia entre conceito, construção e imagem.
Em um momento em que muitas casas buscam redefinir suas identidades, a Dolce & Gabbana escolhe reforçar a própria. Ao organizar seus códigos e reafirmar sua linguagem, a marca apresenta uma coleção que não se sustenta na novidade a qualquer custo, mas na clareza de quem sabe exatamente quem é. No luxo contemporâneo, essa fidelidade à própria história continua sendo uma das formas mais sólidas de afirmação.
