A Semana de Moda de Milão marcou a apresentação do primeiro desfile de Demna Gvasalia para a Gucci.
Embora sua chegada à casa tenha sido anunciada meses antes, este foi o momento em que sua visão criativa passou, pela primeira vez, a ocupar o formato mais tradicional da moda: o runway.
A estreia acontece após um início deliberadamente não convencional. Em setembro de 2025, Demna realizou sua primeira manifestação criativa como diretor criativo da Gucci por meio de um projeto híbrido: a coleção Spring/Summer 2026, La Famiglia, apresentada sem desfile físico, por meio de um lookbook digital e do curta-metragem The Tiger, dirigido por Spike Jonze e Halina Reijn. A escolha marcou o começo de sua narrativa na marca fora dos códigos clássicos da semana de moda.
Desde então, Demna Gvasalia passou a se dedicar a um período de pesquisa estrutural sobre a identidade da Gucci.
Em comunicações oficiais, descreve esse processo como a busca pela “Gucciness” da marca, um conceito que envolve não apenas estética, mas também cultura, produto e história. A investigação incluiu visitas aos arquivos e fábricas da maison, além de um mergulho na história cultural italiana, especialmente em Florença, cidade onde a Gucci foi fundada por Guccio Gucci, em 1921.
Nesse percurso, a experiência nas Galerias Uffizi teve papel central. Em carta publicada na véspera do desfile, Demna relatou o impacto de estar diante de O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, descrevendo a obra como um encontro com uma ideia de beleza absoluta, baseada em proporção, equilíbrio e permanência. Ao deixar o museu e atravessar a Piazza della Signoria, o encontro visual com o Palazzo Gucci reforçou, segundo o próprio designer, a percepção da marca como parte integrante da cultura italiana, e não apenas como uma casa de moda contemporânea.
Essas referências se materializaram no desfile realizado no Palazzo delle Scintille, em Milão. O edifício, projetado em 1923 por Paolo Vietti Violi, foi originalmente concebido para eventos esportivos e, após sofrer danos durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a abrigar apresentações do Teatro alla Scala. Trata-se de um espaço marcado por transformação e reaproveitamento, contexto coerente com o momento vivido pela marca.
Para sua estreia na passarela, Demna concebeu o cenário como um museu imaginado. O grande salão foi revestido por travertino Stoneleaf, um material desenvolvido a partir de lâminas ultrafinas de mármore italiano aplicadas sobre fibra de vidro e resina, criando o efeito visual do mármore sem o uso de blocos maciços. O ambiente foi povoado por esculturas clássicas inspiradas em obras das Galerias Uffizi e do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, com referências às tradições romana e helenística, incluindo figuras como Afrodite e Ártemis. As peças foram escaneadas em 3D e recriadas por artesãos da Toscana em gesso tratado para simular mármore.
A coleção apresentada em Milão, Fall/Winter 2026, recebeu o nome de Primavera.
Em sua carta pré-desfile, Demna descreveu o momento como um “aniversário”, definindo-o como o início real de sua visão na Gucci. Segundo o estilista, esta fase propõe a construção de uma Gucci mais leve, mais suave e mais refinada, com foco em produto, pragmatismo e clareza, reposicionando a marca como uma superbrand sustentada por objetos de desejo concretos.
Em cena, a coleção articulou diferentes blocos de silhueta: conjuntos claros e vestidos longos com drapeados de inspiração greco-romana dividiram espaço com T‑shirts e minivestidos em tecido de meia, enquanto momentos mais soltos surgiram na forma de tracksuits reinterpretados como vestidos, usados sob trenchcoats fluidos. O ajuste retornou em saias lápis com monograma “G”, estolas de pele e blusões e bombers volumosos com plumas, antes de a narrativa avançar para uma virada mais noturna, marcada por ecos do período Tom Ford, com calças de couro de cintura baixa, vestidos e minissaias com fendas altas. O encerramento coube a Kate Moss, que atravessou a passarela em um vestido sequinado, decotado nas costas, acompanhado de um GG thong dourado cravejado de diamantes.
Nesse contexto, a coleção reafirma a centralidade de arquétipos de vestuário e de itens históricos da maison, com destaque para bolsas e acessórios emblemáticos, como a bolsa Jackie e o loafer Jordaan, reinseridos na narrativa da marca sem ruptura com seus códigos fundamentais.
Mais do que um encerramento, o desfile estabelece uma transição clara: da primeira manifestação criativa de Demna Gvasalia na Gucci, o filme, para sua estreia oficial no formato clássico da moda. Um ponto de partida que não busca síntese imediata, mas estrutura.
