Jonathan Anderson não está interessado em nostalgia. Na sua segunda coleção para a Dior, ele transforma a história em ferramenta criativa — e faz isso com confiança, inteligência e zero medo de misturar códigos. O resultado? Um menswear que parece antigo e novo ao mesmo tempo. Mas você teria coragem de usar?
O ponto de partida é Paul Poiret, um dos nomes centrais da moda do início do século XX. Mas esqueça qualquer releitura literal. O Poiret de Anderson é remixado: volumes soltos, orientalismo reinterpretado e uma estética que flutua entre couture e street level sofisticado. Pense em jaquetas de aviador gigantes, parkas monumentais e silhuetas que não pedem permissão para existir.
A clássica jaqueta Bar — um dos símbolos mais reconhecíveis da Dior — reaparece com outra energia. Tweeds rústicos, pied-de-poule desfiado, flanelas verdes.
O fraque e o morning coat são desmontados, reconstruídos e tingidos em verde-caqui, com golas de pele e referências militares.
É formal, mas longe de ser engessado ou ultrapassado. Tradicional, sem nunca ser previsível.
Anderson chama isso de “aristo-youth”: uma geração que herdou símbolos de poder, mas prefere usá-los com ironia. Alfaiataria com atitude, couture com senso de humor e luxo sem rigidez.
Mesmo quando flerta com o experimental, a coleção não perde contato com a realidade. Ternos de ombros largos, as calças amplas e os casacos slim com lapelas longas entregam desejo real — peças pensadas para circular globalmente, entre Paris, Seul e Nova York.
A trilha reforça o mood: eletrônica crua e tensão controlada. Tudo acontece na passarela infinita da Dior nos jardins do Musée Rodin, sob o olhar de uma front row de peso.
Mas o verdadeiro protagonista é o próprio Anderson — e o impacto que ele já está causando. O tweed Donegal pontilhado, por exemplo, virou uniforme fashion da temporada após sua estreia na Dior. Coincidência? Não.
Nas entrelinhas, o desfile fala sobre tempo. Sobre como a moda revisita o passado não para copiá-lo, mas para ativar novas conexões. A referência a Poiret aparece até nas perucas amarelo-canário dos modelos — um gesto conceitual, quase performático, muito mais Gen Z do que museológico.
Se Poiret foi esquecido em vida e celebrado décadas depois, Jonathan Anderson parece trilhar o caminho oposto. Presente, influente e absolutamente conectado ao agora, ele reposiciona a Dior como um dos espaços mais interessantes de experimentação no menswear contemporâneo.
História? Sim. Reverência? Só quando faz sentido. O resto é atitude.
Para quem deseja aprofundar o olhar e dominar a gramática das passarelas, o nosso Observatório de Tendências oferece as ferramentas para decodificar movimentos e identificar o que define o Zeitgeist da moda.
