Chanel apresentou sua coleção Outono/Inverno 2026 sob a direção criativa de Matthieu Blazy, e o que mais me interessou não foi apenas “o que” apareceu na passarela, mas o como a marca escolheu contar essa história.
O cenário já entregava a mensagem: um Grand Palais transformado em um canteiro de obras lúdico, com a sensação de que a Maison está, literalmente, em construção. Não no sentido de ruptura, mas como um gesto consciente de reposicionar códigos antigos dentro de uma lógica contemporânea: funcionalidade, movimento, desejo e vida real. A Chanel, aqui, se coloca como processo.
A inspiração central de Matthieu Blazy nasce de uma reflexão direta sobre a ideia de metamorfose, formulada a partir de uma citação de Gabrielle Chanel que atravessa o tempo com impressionante atualidade: “A moda é, ao mesmo tempo, lagarta e borboleta. Seja lagarta durante o dia e borboleta à noite.”
Essa ideia foi traduzida por Matthieu Blazy como um diálogo entre função e transformação, dia e noite, realidade e fantasia.
A coleção começou com uma espécie de “quase nada” extremamente bem calculado: peças enxutas, diretas, com cara de guarda-roupa possível. Essa abertura tem algo de provocativo, porque a simplicidade, quando vem de uma casa como a Chanel, vira uma lupa: a gente começa a enxergar matéria, corte, proporção e intenção com mais nitidez. E é aí que Blazy mostra o que sabe fazer: construir interesse sem depender de excesso.
A narrativa do desfile foi clara: do dia para a noite, do pragmático para o encantamento. A ideia é bonita porque é verdadeira. Nós precisamos de roupas que funcionem quando a vida pede pressa, e também precisamos de roupas que elevem o corpo quando a vida pede festa.
Ao longo do show, o tailleur, símbolo absoluto da marca, foi sendo reescrito como um laboratório: ora mais seco e urbano, ora mais têxtil e sensorial, ora mais tecnológico. O “clássico” não desaparece; ele se reconfigura.
Essa reconfiguração acontece muito nas proporções: cinturas que descem, camadas que deslocam o olhar, uma tensão constante entre estrutura e fluidez. Em vários momentos, senti um diálogo com os anos 1920, não como fantasia vintage, mas como ideia: liberdade de movimento, corpo menos “aprisionado” e a elegância surgindo da mobilidade.
Aos poucos, a coleção escurece e brilha. Entra um capítulo de iridescência, textura e leveza ornamental. O interessante é que a noite aqui não aparece como “glamour por glamour”, mas como continuação do dia, como se o mesmo corpo que trabalha, circula e atravessa a cidade também merecesse um momento de suspensão, brilho e poesia.
Há vestidos com referências à lingerie, superfícies metálicas, plumas e bordados que parecem existir para acompanhar o gesto, não para endurecer a silhueta.
Nos acessórios, o recado também foi direto: sapatos que abraçam o pé, bolsas com vocação de cotidiano (e não apenas de vitrine) e uma presença forte de peças pensadas para a mulher em movimento, sem abrir mão da imagem. Esse equilíbrio é exatamente o tipo de coisa que a crítica costuma valorizar quando percebe que a moda não está falando apenas com a passarela, mas com o mundo.
Saí com a sensação de que Blazy está consolidando uma Chanel que não precisa gritar para ser percebida. Uma Chanel que entende que o luxo do nosso tempo tem a ver com intenção, com uso, com qualidade sensorial e com uma narrativa coerente. A Maison parece menos preocupada em “provar” sua relevância e mais focada em exercê-la.
Em resumo, um desfile que não tenta cristalizar a Chanel em um mito, mas a coloca em movimento. E isso, para mim, é o que torna esse capítulo tão interessante.
