A temporada de Primavera/Verão 2026 confirma Londres e Milão como palcos de contrastes criativos.
Burberry e Iceberg, cada uma fiel à sua história, desfilam em seus respectivos cenários, mostrando que o Brit cool pode se reinventar de formas muito diferentes.
Foram quase três anos na Burberry em Londres, uma experiência que me fez acompanhar a marca de perto e compreender sua essência. Falar sobre ela é mergulhar em seus códigos britânicos icônicos: o xadrez, que nasceu nos anos 1920 e se tornou símbolo absoluto da maison, e os trench coats em gabardine, especialmente no clássico Archive Beige, aquele tom que respira o verdadeiro British cool — ou pelo menos tenta.
Já o Iceberg, por outro lado, traz uma energia completamente diferente. Nascida como marca italiana especializada em malharia, hoje é reconhecida por sua fusão entre sportswear de luxo e influências culturais contemporâneas.
Onde a Burberry exala tradição, a Iceberg brinca com cores, formas e atitude. Dois universos distintos, mas que nos desfiles de Primavera/Verão 2026 parecem convergir, trazendo o Brit cool para a passarela.
O desfile da Burberry aconteceu nos jardins do Kensington Palace, transformados em uma espécie de Glastonbury privado — um cenário que lembrava o espírito festivo do famoso festival de música, mas exclusivo para convidados da marca.
A tenda em gabardine, montada sobre terra batida como uma arena de festival, recebeu convidados acomodados em blocos de assentos em tons terrosos, reforçando a atmosfera descontraída e, ao mesmo, tempo sofisticada do evento.
O front row chamou a atenção, reunindo ícones de diferentes gerações — de Elton John, com cachecol vermelho em homenagem ao seu glam, até Jason Statham e o jovem tenista Jack Draper. A cena evocou o espírito de Christopher Bailey, quando os embaixadores da marca eram os Brits mais descolados.
Na temporada anterior, Daniel Lee havia redesenhado as bases da marca: o outerwear estruturado, uma paleta terrosa, materiais ricos e um casting maduro e sério. Foi um desfile elegante e seguro, mas nada revolucionário.
Para a Primavera/Verão 2026, no entanto, a Burberry se mostra mais ousada. Clássicos são revisitados com irreverência: trench coats coloridos, encerados e impermeáveis surgem já nos primeiros looks, evocando uma estética dos anos 60, perfeita para Sir Elton John ou Poppy Delevingne.
Casacos de couro com franjas dominaram a cena, enquanto o vestido metálico em mesh definiu o auge do Brit cool. Os homens, com estilo Gallagher inspirado nos irmãos da banda britpop Oasis, pareciam saltar diretamente de um show de rock para a passarela, adicionando atitude, enquanto peças em crochê trouxeram a delicadeza boho dos anos 70, equilibrando a energia rock’n’roll.
“Music is about self-expression”, diz Lee, traduzido em silhuetas afiadas, crochê minuciosamente trabalhado e laser cut que transforma couro em renda. Blazers de três botões em lã e jeans, e camisas pinstripe com gravatas em twill de seda reforçam a alfaiataria, agora com um toque urbano quase de backstage.
Nos pés, destacam-se Baez sandals, a bota Tone e a Ledger, inspirada na equitação, enquanto as bolsas chamativas reafirmam a assinatura de Lee. A coleção conecta subculturas dos anos 60 e atmosferas Mod à tradição Burberry, criando um resultado contemporâneo e quase street.
Nos bastidores, o desfile reflete também a estratégia do novo CEO Joshua Schulman, que assumiu a Burberry no verão de 2024, vindo da Coach, e estabeleceu o foco em outerwear, heritage e preços mais acessíveis.
Ao contrário de muitos concorrentes pós-Covid, a Burberry reduziu preços em categorias como pequena marroquinaria, aproximando a marca do público histórico e atraindo novos consumidores.
Reforçando sua estratégia de modernização da marca, o novo conceito de varejo, o Scarf Bar — inspirado no luxo interativo e na experiência do cliente e inaugurado no flagship da Regent Street — mostra como a Burberry conecta tradição e inovação. Sobre o momento atual, Schulman resumiu: “Ainda temos muito trabalho a fazer.”
O desfile vai além de uma coleção. É um sinal claro da direção da marca, onde Daniel Lee explora um waterproof revisitado. Arquétipos Burberry — trench, tailoring, check — se transformam em samples experimentais: mini vestidos em chainmail, slip dresses em blocos de cor, bootcut cropped e raincoats entrelaçados de algodão e de ráfia. Todos os elementos reforçam o britishness e contam a história de uma música que mudou, com a atmosfera cozy dos bastidores confirmando a coerência da maison.
Já a Iceberg fez uma releitura do britpop com um toque milanês para a Fashion Week de Milão. Bombers com zíper, trench coats, malharia ajustada, calças de alfaiataria com prega e saias com movimento marcante compuseram a coleção de James Long, inspirada na sensibilidade italiana combinada com o twist inglês para a Primavera/Verão 2026.
“Adoro a liberdade da Iceberg. É aquela atitude sportswear que faz parte do DNA da marca e também é o meu background criativo. Esse é o mood da temporada: um state-of-mind esportivo italiano misturado a um ponto de vista inglês. É afiado, é divertido, é totalmente Iceberg”, conta Long.
A malharia ressaltou as linhas ajustadas, com polos de mangas compridas, vestidos leves em malha e camadas drapeadas de chiffon. Minissaias assimétricas, blazers de couro combinados com saias retas e peças com zíperes mostraram o caráter experimental da marca.
Dessa forma, Burberry e Iceberg redefinem o estilo britânico nas passarelas, equilibrando elementos clássicos e contemporâneos.
