Em Paris, as grandes Maisons redirecionam seus olhares para a essencialidade do produto, a sofisticação tátil dos materiais e a celebração de seus códigos.
Na moda atual, a narrativa cede lugar ao ato de vestir. A temporada parisiense de Primavera-Verão 2027 mostrou que o verdadeiro diferencial reside no savoir-faire: na precisão do corte, na pesquisa de matérias e na coerência entre identidade e produto.
Da geometria solar da Courrèges à arquitetura botânica de Margiela, passando pelos estudos de superfície da Chloé, a recorrência dessas decisões reafirma o produto como o principal veículo de diferenciação.
Vejamos.
Courrèges: geometria e a liberdade das formas
No Palais de Tokyo, Drew Henry assinou sua estreia à frente da Courrèges, promovendo uma reconexão com a origem da maison.
O designer resgatou a atmosfera solar, gráfica e despretensiosa que André Courrèges imortalizou nos anos 1960, distanciando-se do rigor mais escultural que marcou as temporadas recentes da maison.
O foco da coleção: um guarda-roupa diurno. Bermudas, alfaiataria desconstruída em proporções masculinas e conjuntos em tecido éponge definem uma proposta marcada pela leveza. Essa mesma sensação reaparece nos trench coats usados abertos sobre lingeries, que conferem fluidez e naturalidade à silhueta.
A identidade visual da marca materializa-se na logomania presente em maxi-colares, golas e bolsos. A paleta de cores, composta por uma fusão vibrante de laranja, abricó, amarelo-canário e verde chartreuse, dialoga com o acabamento impecável, evidenciado em detalhes como os botões brancos e as golas.
Nos acessórios conceituais, como os chapéus revestidos em PVC, a marca explora superfícies de forte apelo tátil, reforçando a materialidade como um dos aspectos centrais da proposta apresentada por Drew Henry.
Dries Van Noten: a moda technicolor de Julian Klausner
No Carreau du Temple, Julian Klausner apresentou uma visão estival carregada de rigor estético. Inspirado pela aura de uma Hollywood imaginária, o diretor criativo fez das estampas a base estratégica da coleção.
Tecidos de seda fluidos convertem-se em cartazes de cinema vintage, enquanto grafismos e sobreposições em organza de seda criam sutis efeitos de profundidade e desfoque visual.
A alfaiataria utilitária é reinventada: field jackets com bolsos estruturados ganham transparências que revelam a sensualidade de tops em leopard print.
O diálogo entre a tradição de Antuérpia e a sofisticação cosmopolita traduz-se ainda em casacos salpicados por miríades de estrelas, maxi-bolsas em couro carregadas rente ao corpo e broches de cristal que ajustam os tecidos com precisão.
Maison Margiela: a coleção botânica de Glenn Martens
A estreia de Glenn Martens no prêt-à-porter da Maison Margiela transformou o Élysée Montmartre em uma instalação botânica criada pelo artista floral Mark Colle.
Ao som de Courtney Love, a coleção explora o diálogo entre a rigidez do tailleur tradicional e a fluidez dos drapeados e babados.
Martens desestrutura os códigos tradicionais da haute couture parisiense.
O savoir-faire de Glenn Martens no universo do denim traduz-se em cortes precisos aplicados ao guarda-roupa masculino.
No campo dos acessórios, as minibolsas juntam-se aos vanity cases de toque aveludado, enquanto os sapatos apresentam referências à icônica Tabi, além de uma série de sandálias rasteiras que dialogam com a tendência dos naked shoes e com a emblemática silhueta Heel-less, que também se estende à coleção masculina.
Balenciaga: o mundo marinho de Pierpaolo Piccioli
No Tennis Club de Paris, em meio a rumores de sua saída, Pierpaolo Piccioli homenageou a herança arquitetônica de Cristóbal Balenciaga com a coleção “Les Coraux de la Liberté”.
Ao distanciar-se do apelo estritamente streetwear, o estilista italiano concentrou sua energia no movimento, na proporção e na fluidez orgânica das estruturas marinhas.
Túnicas e vestidos longos mimetizam a dança dos corais sob a água, enquanto golas monumentais fazem alusão às estruturas das acróporas, enquanto as calças cargo desconstruídas surgem em versões esculturais.
Uma minissaia branca combinada com jaqueta creme e botas pretas, nosso look preferido, imita uma anêmona-do-mar com suas franjas, efeito que perpassa toda a coleção. Essas ideias, na nossa opinião, prometem excelentes pontos de partida para o visual merchandising das lojas da marca.
As bolsas exploram a maciez do couro trabalhado sem rigidez, dividindo a atenção com os naked shoes combinados com vestidos fluidos e transparentes, além do comentado lançamento de um novo sneaker.
Chloé e Stella: a consciência dos elementos
Na Chloé, Chemena Kamali reafirmou seu domínio sobre a estética boho-chic ao levar para os jardins do Osservatorio de Paris uma coleção pautada pelo contraste.
Blusas em organza com bordados vazados e mangas bufantes encontram o contraponto gráfico de capas de chuva em vinil transparente colorido.
A lingerie é elevada à categoria de joia e transformada em arneses de renda que contornam o corpo com delicadeza.
Já na apresentação da Stella McCartney, que teve como cenário os jardins da residência do embaixador do Reino Unido, a estilista aliou a alfaiataria fluida a um manifesto poético em defesa dos oceanos.
Blusas, calças de cintura baixa com bordados ondulados e trench coats em tom rosa-coral dividiram a cena com a marroquinaria da marca, executada em materiais sustentáveis derivados da uva e do micélio de cogumelos.
O retorno ao essencial do ateliê
Na Primavera-Verão 2027, a moda parisiense celebra sua essência: o vestir com maestria e técnica. A temporada demonstra que, quando o corte e a matéria assumem o protagonismo, a moda reconquista seu valor mais duradouro.
Para além dos artifícios de styling e cenografia, o que permanece são roupas e acessórios que transcendem a passarela: peças que convidam ao toque, ao movimento e ao guarda-roupa do dia a dia.
Sobre a autora
Fernanda Zeemann atua entre o desenvolvimento de coleção, o produto de moda e o posicionamento de marca. Professora do Istituto Marangoni (Florença) e da Accademia del Lusso (Roma), construiu sua trajetória profissional em empresas como Versace, Marni e Burberry, conciliando prática de mercado, pesquisa e ensino.
No My Fashion Blomme, seus artigos analisam a moda como sistema, observando como produto, coleção, linguagem, posicionamento e estratégia se articulam na construção de valor para marcas, profissionais e mercados.
